Em 2022, a Karina Borges me pediu que respondesse a algumas perguntas sobre minhas atividades de escritora e pesquisadora da edição de livros. Pedi alguns dias e respondi. A entrevista seria para o site da editora Quintal, um projeto muito bacana que existia em BH, sob a batuta da Carol Magalhães. Fundada em 2015 e nascida para produzir livros só por/de mulheres, era uma casa feminista e vinha compondo um catálogo bem legal. Findou-se, no entanto, e minha entrevista ficou aqui no meu desktop.

Por estes dias, mexendo nos arquivos do computador e reorganizando minha área de trabalho, topei com a pastinha e o arquivo da entrevista nunca publicada. Busquei nos e-mails antigos e vi que cheguei a perguntar sobre a publicação à Karina, que me deixou meio no ar. Bem, vai aqui a íntegra da entrevista, sem intervenções de lá para cá. É preciso dar o crédito então de que foi em 2022. Apenas os destaques/negritos nas respostas são novos.

Gostaríamos que você se apresentasse e falasse um pouco sobre sua atividade como professora/escritora/pesquisadora.

Sou uma escritora que se tornou professora para sustentar a persistência da escritora. Acho que é uma situação comum, sempre, infelizmente. Isso não significa que eu faça mal qualquer uma das duas atividades; apenas quer dizer que não posso viver de uma delas, profissionalmente, e que os tempos de ambas são atravessados de maneira indesejável. A vida de professora é precária no Brasil, como todos sabem, e a de escritora consegue ser pior. Sou uma apaixonada por leitura, escrita e língua portuguesa que decidiu, então, fazer Letras. Depois de me formar duplamente, como licenciada e como bacharel, fiz mestrado e doutorado em linguística, o que contrariou um pouco as aparências. Eram só aparências. Ser escritora não tem a ver com formação universitária, embora uma coisa possa se beneficiar da outra. Sou pesquisadora porque gosto de estudar alguns temas. A isso também me dedico muito, muito mais do que seria esperado nas condições profissionais e infraestruturais que tenho. Pesquisar não apenas me leva à leitura incessante, mas também à escrita. São desdobramentos apaixonantes, trocas infindáveis com pessoas interessantes, redes intelectuais muito férteis e vivas. É disso que gosto. Sou mineira de Belo Horizonte, onde sempre morei e trabalhei. Tenho um filho que me impulsionou muito, sempre. Tenho perto de 47 anos e mais da metade da minha vida foi e está dedicada ao meu trabalho, algo que pensei que me levaria a alcançar alguns sonhos. Ainda não consigo tirar muitas conclusões sobre isso, mas certamente a conta não fechará. Sou servidora pública, atuo no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, o CEFET-MG, em três níveis de ensino: médio, superior e pós-graduação. Atualmente, sou também pesquisadora do CNPq. Em termos de temas, no CEFET-MG faço o que dificilmente poderia fazer em outro lugar, embora em condições muito aquém do ideal. Escrevi muitos livros de poesia e prosa, incluindo infantis e juvenis. Do ponto de vista comercial, estes são os mais bem-sucedidos. Do ponto de vista simbólico, é a poesia que me leva longe, literalmente.

Antes de começar a escrever sobre mulheres editoras, você pesquisou escritoras do século XX. Existe algo em comum, a ser partilhado, entre uma mulher que edita e uma mulher que escreve?

Sim, pesquisei primeiro escritoras do século XX para ver se elas tinham dificuldades de publicar seus livros; se tinham, quais eram; se elas percebiam isso ou não; quem eram seus contatos em sua época. Uma mulher que escrevia no século passado tinha menos espaço (ainda) para publicar; geralmente ela não era editora; ela encontrava poucos editores e todos homens, em certas regiões delimitadas do país. Isso mudou muito, em especial depois dos anos 1990. Mas mesmo antes, umas poucas editoras existiram, inclusive nos anos 1930, 1940, o que soa surpreendente. Não eram poderosas, não são fáceis de achar nos registros disponíveis, mas estiveram lá. No século XIX, existiram editoras de jornais, por exemplo, inclusive de periódicos dedicados à literatura e que suplicavam para que as mulheres publicassem seus textos sem pseudônimo. Hoje, uma mulher que escreve dispõe de mais canais onde escoar sua produção e tem muito mais facilidade de se tornar a editora de si ou de outras(os). Isso tem a ver com multifatores e em combinações variadas, mas basicamente com tecnologias disponíveis em nosso tempo, sociedade, economia, conquistas feministas, etc.

Como você descreveria o mercado editorial brasileiro? Podemos afirmar que existe representatividade feminina no setor?

É difícil fazer uma descrição do mercado porque ele é grande, diverso, complexo, multifacetado, cheio de ramificações e vasinhos comunicantes. Não sei se podemos dizer que existe representatividade feminina na setor, mas certamente hoje há muito mais mulheres publicando e fazendo sucesso, ou ainda, ficando visíveis, sendo lidas, movendo essa engrenagem, tanto como leitoras/consumidoras quanto como escritoras e editoras. No entanto, a reivindicação disso não cessa e a sensação ainda não é de conforto. Nem sei se é bom que seja. Há tensão no ar e os espaços ainda estão sendo conquistados. Mas é visível que as escritoras estejam aí, não passem despercebidas de forma alguma. As editoras também estão longe, hoje, de ser exceções ou de fazerem livros que ficam escondidos sob uma camada de obras editadas por homens. Hoje, grandes grupos multinacionais têm diretoras e CEOs; editoras pequenas ótimas são tocadas por mulheres e assim vai.

Quais são as principais dificuldades encontradas quando se decide estudar o trabalho de mulheres na edição?

A primeira dificuldade que me vem à mente é a metodológica. É complicado encontrar registros fáceis e fontes prontas, seguras, com dados que estejam na superfície para tratar das mulheres que editaram ou editam. É preciso percorrer trilhas meio laterais, marginais, correr por fora, ler dezenas de correspondências entre homens para pescar um nome de mulher, aí partir em busca dessa figura, geralmente por uma estradinha vicinal pouco explorada. É difícil saber quem são as editoras porque elas geralmente não estão narradas (tratei disso num ensaio); depois encontrar fontes primárias sobre elas; às vezes é possível encontrá-las vivas (quando estamos estudando as pioneiras, claro); é preciso recorrer a entrevistas e à história oral; e tornar isso público é importante, porque cada jovem editora que diz estar inventando a roda está, também, mesmo sem querer, apagando uma predecessora sua. Nós ainda precisamos aprender a nos citar, a nos valorizar coletivamente. Sinto isso mesmo na academia. É trabalho de campo, é investigação, no sentido mais profundo da palavra. É muito gratificante, também, quando dá certo. É como descobrir pedras preciosas num garimpo desorganizado.

Percebemos um aumento de editoras independentes no Brasil, algumas fundadas por mulheres comprometidas em publicar apenas escritos de autoria feminina. Você acredita que a publicação independente tenha propiciado uma ascensão de editoras engajadas na defesa e difusão da produção literária de mulheres no país?

Esse aumento vem acontecendo desde os anos 1990. Muitas editoras foram fundadas por mulheres que já podiam fazer isso sem grandes obstáculos. Alguns desses projetos são feministas declarados, isto é, buscam vozes femininas e ponto. Alguns só trabalham com mulheres em todas as etapas: designers, diagramadoras, capistas, revisoras, etc. Já existiam editoras assim antes, em momentos históricos e sociais menos férteis em tecnologias facilitadoras. A Mazza Edições, por exemplo, nasceu para publicar autorias negras no inicinho dos anos 1980. A editora Mulheres, nos anos 1990, publicava feminismos e resgatava autoras e obras de séculos anteriores. Algumas casas editoriais publicaram coleções dedicadas apenas a autoras. Isso não pode ser considerado novidade absoluta. Mas de 1990 em diante, sim, surgiram mais editoras e mais projetos desse tipo, com menos e mais visibilidade. Várias editoras surgiram fundadas e comandadas por mulheres, mas sem essa missão explicitamente feminista; outras têm o objetivo de trabalhar apenas com mulheres, caso, por exemplo, da Quintal, de Belo Horizonte, da Macabéa, do Rio de Janeiro, entre outras. Mas elas tiveram predecessoras.

Você é uma das coordenadoras do grupo de estudos Mulheres na Edição. Como acontecem esses encontros e quais temas são discutidos?

O grupo nasceu de um projeto de pesquisa que escrevi e submeti à agência de fomento do estado aqui, a Fapemig. Convidei minhas colegas Maria do Rosário Alves Pereira e Renata Moreira para conduzir tudo comigo, e daí nasceu a certeza de que precisávamos nos manter estudando. O grupo nasce da dificuldade que temos de estudar, de ler sistematicamente, de não perder o ritmo de pesquisadoras, porque as horas de leitura e debate costumam ser esquecidas nas computações de encargos. Isso não é tranquilo, dado. Então nos prometemos uma leitura por mês, pelo menos, e abrimos as portas desse “evento”, isto é, do dia em que íamos nos encontrar para discutir esse texto mensal. Daí algumas pessoas começaram a vir, a se encontrar conosco, a ler conosco. Na pandemia, o grupo migrou para os encontros virtuais e cresceu, cresceu exponencialmente. São mais de 250 pessoas cadastradas, que recebem nossos informes e indicações bibliográficas*. Essa turma toda é sempre convidada para os encontros, e a média de pessoas frequentes nos dias de debate é de 30 pesquisadoras e pesquisadores. Sim, homens são bem-vindos e temos colegas ótimos debatendo conosco. Uma vez por ano fazemos um evento comemorativo do aniversário do grupo, em agosto. Participamos de muitos eventos que querem nos ouvir e trocamos com pesquisadoras/es de várias partes do país e da América Latina e Europa, onde há pessoas com interesses parecidos. Nosso trabalho tem sido bem visto e reconhecido. A ideia é sempre conectar mulheres e edição, então lemos muitos textos feministas, estudos de caso, teoria, mas também textos de edição, para que façamos esses links. Essa é a inovação da coisa.

Ano passado, você e outras investigadoras lançaram pela Editora Moinhos o livro Prezada Editora. Como foi que surgiu este projeto? Ele terá uma continuidade?

O livro foi organizado por nós três, coordenadoras do grupo, e conta com pesquisadoras que fazem parte dele e outras que não. O projeto surgiu dos meus arquivos, da ideia de juntar textos sobre editoras brasileiras num volume bacana. Isso não existia no Brasil. Há coisas parecidas na Colômbia, na Argentina, na Espanha… mas é raro.

Reunimos então as pesquisadoras, os textos, trabalhamos neles e colocamos na coleção Pensar Edição, que coordeno com dois parceiros ótimos, os editores Nathan Magalhães e Pablo Guimarães, respectivamente das editoras Moinhos e Contafios. É importante que haja continuidade disso, mas não temos ainda fôlego para outro livro. Estamos escrevendo artigos e capítulos de obras para as quais nos convidam. Espero que em breve possamos reunir outros trabalhos de mais pesquisadoras sobre outras editoras brasileiras.

Que conselho você daria para alguém que quer pesquisar mulheres editoras no Brasil?

Ah, participar do nosso grupo (risos). Não há ainda outro espaço igual. É preciso ler, estudar, ter acesso a uma bibliografia nem sempre fácil e visível, abrir o olhar para nossas questões, despertar para a investigação nesta perspectiva (feminista e editorial), ter interlocutoras(es), debater, acertar e errar coletivamente, ganhar força com mais pessoas reunidas, escrever, publicar, dialogar. É trabalhoso, é preciso investir tempo. Mas estamos fazendo isso com a certeza da importância que tem. É importante praticar uma ciência generosa, de trocas e em que todas puxam todas. Há pessoas incríveis no grupo, fazendo pesquisas maravilhosas.

* Em 2025, temos mais de 400 pessoas cadastradas no grupo. Os encontros continuam sendo mensais e sem interrupções.

Ana Elisa Ribeiro, Maria do Rosário Alves Pereira e Renata Moreira em encontro na sede da Academia Mineira de Letras, 2021.