A vida acadêmica produtiva exige paciência. É o que muita gente não tem. A ansiedade é um mal que acomete sem distinção. Mas o que se pode fazer? Talvez tenhamos desaprendido a entender o tempo das coisas e das pessoas que as fazem. Por outro lado, muita coisa anda mesmo atrasada e atravancada, o que nos deixa em maus lençóis.
Dizem que precisamos pesquisar. Quanto tempo uma pesquisa exige? Que precisamos escrever? De quanto tempo precisamos dispor para escrever um artigo?E para publicá-lo, se estiver bom? Uma revista leva cerca de um ano para dar uma resposta ou para publicar de fato um texto, isso quando é organizada. No Brasil, a tendência à precarização e à descontinuidade nos deixa, quase sempre, com um sentimento de suspensão e de frustração. Somos nós mesmos e nossos colegas que editamos as revistas, e elas nunca estão tão boas quanto poderiam (e deveriam). Tudo depende muito de um empenho pessoal ou de pequenos grupos, se tudo o mais ao redor funcionar. E geralmente não funciona. Editei algumas revistas, algumas vezes, e só não sofri mais porque tinha colegas muito razoáveis comigo. E nem isso é garantido. A sensação de brigar contra a própria instituição em que estamos produz um cansaço imenso, e desanima.
Lidar com a escrita parece sofrido para muitas pessoas. Não sou uma delas. Escrever sempre foi um oásis para mim. Não é nenhuma mágica. Me dispus para a escrita desde bem cedo e entendi que ela seria minha travessia para muitas coisas. Fiz mestrado e doutorado com prazer (mesmo conciliando com trabalho mal remunerado, filho pequeno, marido abusivo e tudo). Entendi que minha carreira dependeria da escrita de um modo cadenciado. O negócio é como correr (a estratégia), e talvez eu tenha aprendido isso na pista de atletismo da minha boa escola pública da juventude: não dá para queimar toda a energia nos primeiros metros. O lance é a constância, a depender da modalidade da corrida. A vida acadêmica é uma corrida de longa distância. Também aprendi isso com um amigo que gostava de dirigir na estrada e chegar bem ao outro lado, em tempo razoável. É claro que pode haver intercorrências: problemas de saúde, mortes, cuidados extremos… Isso paralisa. Mas se não acontecer, as coisas me parecem administráveis.
Se alguém está sempre pesquisando, sempre escrevendo um pouco, sempre observando as oportunidades, também poderá estar sempre cumprindo o que precisa para entrar e se manter na vida acadêmica. Manter… É o mais complicado. Sobretudo quando não fazemos parte do elenco de três ou quatro universidades mais visíveis… A luta é bem grande.
Há uns dias, recebi a boa notícia da publicação de um capítulo em um livro no México, em coautoria com uma colega muito especial, a Jenny Guerra. Em 2025, ela esteve por aqui comigo, em Belo Horizonte, quando firmamos ainda mais nossos laços feitos pela internet. Vimos trabalhando juntas há tempos. O texto está no livro Tendencias de la investigación bibliotecológica y estudios de información, que deixo aqui e que pode ser baixado livremente. Derivou de um evento do qual participamos no Instituto de Investigaciones Bibliotecológicas y de la Información da Universidad Nacional Autónoma de México (Unam), no final de 2025. Fiquei feliz quando Jenny me enviou o arquivo.
Nosso capítulo tem uma história de meses, com algumas curiosidades. Escrevemos a partir de uma provocação da Jenny para que comparássemos algumas editoras brasileiras e os usos da inteligência artificial gerativa. Levamos semanas entrevistando pessoas, estudando, lendo e produzindo juntas cada linha. Com isso pronto, submetemos o artigo a uma revista brasileira, que reprovou nosso trabalho com dois pareceres curiosos. Havia elogios, sim, mas havia ressalvas peculiares.
O texto ainda estava em português. Uma das ressalvas arriscava dizer que nossa tradução fora feita com alguma IA… Eu só pude rir. Não era. Era pura tecnologia analógica. Isso nos deixou também irritadas. Há pareceres que são justos; há outros que são pedantes; e essas coisas nem sempre se excluem. Bem, pegamos nosso texto de volta, consideramos alguns apontamentos mais sérios dos pareceres e voltamos as costas à revista, que segue tentando sobreviver. Enquanto isso, trabalhamos para o livro. E ele saiu. E nos deixou felizes. O texto talvez interesse a alguns colegas que lidam com nosso tema. A tradução ao espanhol é das colegas mexicanas, sem IAG. 🙂
Além da cadência necessária para produzir e manter a vida acadêmica on, é preciso ter paciência com muito mais coisas e entender que é sempre possível melhorar, sem abaixar a cabeça para o pedantismo anônimo. Vamos ao que interessa.
A Biblioteca Virtual do Instituto Cervantes hospeda um acervo muito legal de semblanzas (verbetes) sobre editoras e editores iberoamericanos. Há uns anos, a profa. Pura Fernández me fez um convite para participar enviando textos sobre editoras brasileiras. Até tentei, mas não deu para coordenar bem a produção. Conseguimos de cá enviar alguma coisa, entre textos de estudantes e de professores.
Por estes dias, andei pesquisando no acervo deles e descobri dois vídeos de apresentações que fiz sobre edição e mulheres no Brasil. Estão disponíveis na Biblioteca e fiquei feliz por isso.
Há algumas semanas, gravei um bate-papo sobre o futuro da edição universitária e da leitura para o podcast da Editora da UFBA. Foi uma atividade ligada também ao evento da ABEU de que já tratei aqui. A conversa foi com Jézio Gutierre, editor da Unesp, uma das maiores editoras universitárias do país. Para ouvir, é só clicar.
Já faz tempo que a Susane Barros, editora da EdUFBA, me falou do seminário da Associação Brasileira de Editoras Universitárias que aconteceria em Salvador. O evento ainda era uma ideia que Susane sabia que seria um bom desafio. Pronto, chegou! O seminário será em maio e logo farei minha malinha de mão para passar uns dias intensos na capital baiana. Vamos tratar da leitura, outro desafio enorme no Brasil.
A programação conta com um elenco muito interessante de pessoas ligadas ao universo da edição de livros, sobretudo acadêmicos, incluindo colegas de países vizinhos. Vale espiar o site e participar.
Há algumas semanas, uma jornalista entrou em contato para me pedir uma entrevista. Era a Camila Sol, ex-aluna especial de uma disciplina que ministrei há alguns anos na pós-graduação. Animada, sedenta, ela participou muito das atividades naquele momento, e se foi. Acalenta ainda o sonho de fazer um mestrado.Torço por ela. Torço por todas as pessoas que desejam estudar.
Na semana passada, Camila enviou os links para os textos publicados na Revista Salto. Fui capa. E me emocionei com o texto da jornalista ex-aluna. Não era só uma matéria; era uma homenagem.
Com a autorização da Camila Sol, publico aqui a íntegra da entrevista que gerou o texto publicado.
1. Professora Ana Elisa, sua formação e seu envolvimento com a educação sempre estiveram no centro da sua trajetória. Poderia nos contar o que a levou a escolher esse caminho, desde sua formação inicial até sua consolidação no ensino técnico e superior?
É curioso porque não pensei primeiro em ser professora, em me envolver tão profundamente com a educação. Tive uma vida escolar, como aluna da Educação Básica, relativamente conturbada. E conheço mais pessoas como eu… Que foram parar na educação justamente porque sofreram com ela. Minha intenção, ao cursar Letras na UFMG, era trabalhar com livros. Eu já queria ser escritora e editora. Mas a formação para essa área ainda era superficial, não era fácil encontrar interlocução e nem empregos dignos. Com isso, embora eu jamais tenha deixado a escrita e a edição de lado, fui me tornando professora. As oportunidades na docência surgiram e eram mais palpáveis. Por alguns anos, trabalhei formalmente em editoras, mas também dava aulas à noite ou aos sábados, em instituições privadas. O caminho foi se fazendo, como diz o poema. Quando engravidei do meu filho, ficou óbvio que eu não poderia mais trabalhar três turnos! E na hora de escolher e priorizar, optei pelos empregos de professora, que eram mais consolidados. Eu já tinha também clareza de que precisaria estudar sempre. Fiz mestrado e doutorado. Isso me permitiu concorrer a uma vaga em uma boa instituição pública. Com isso, me firmei no compromisso com a educação, mas, claro, sem deixar de lado a escrita e a edição, que são meus temas de pesquisa e docência até hoje. Por onde passei, propus cursos, desenhei, implementei, encontrei colegas dispostos a serem parceiros nessas ideias e realizações. O caminho, então, fui trilhando à medida que tive de fazer escolhas na vida, embora eu me mantenha na teimosia de não deixar completamente nada do que gosto de fazer e estudar.
2. Sua atuação no CEFET-MG é amplamente reconhecida, especialmente por sua contribuição na criação de cursos e projetos inovadores, como o curso de Letras – Tecnologias da Edição. Quais momentos dessa trajetória você considera mais transformadores, tanto para a instituição quanto para você como educadora?
Não fui aluna do CEFET-MG, mas desde jovem sabia da excelência dele, em especial na educação técnica. Não tinha a menor ideia de que um dia atuaria ali. Quando fiz concurso, pessoas formadas em Letras, como eu, entravam para atuar no Ensino Médio. O grupo que assumiu na mesma leva que eu, junto com alguns veteranos muito ousados, isso somado à conjuntura local e nacional, ensejaram um ambiente propício para que propuséssemos o curso de Letras, muito inovador e corajoso, no tema da edição, e a pós-graduação (mestrado e, depois, doutorado). Esse momento nosso no CEFET-MG foi muito especial. Não se repetirá facilmente. Não é simples propor cursos e abrir essas possibilidades, encontrar um grupo coeso e determinado. Temos alguma noção de que é um legado para a cidade, no mínimo. A instituição, com isso, passou a receber mais pessoas, mais diversidade, inclusive ficou mais atrativa para docentes, que veem nela mais espaço de atuação qualificada e especializada. Não há cursos de Letras como o nosso no país, embora vários deles tenham até se inspirado em alguma coisa do nosso e também tenham se transformado um pouco. É claro que precisamos sempre estar atentos, melhorar, aprimorar. Todo curso de graduação precisa se revisar de tempos em tempos. Isso já foi feito e sempre será, por colegas de novas gerações. Minha carreira decolou mesmo depois que entrei no CEFET-MG e tive condições razoavelmente dignas para atuar como professora (nos três níveis de ensino) e como pesquisadora. Claro, não sem obstáculos e desafios que jamais se desfazem. É preciso ter paciência, persistência, insistência etc. Mesmo assim, foi nessa instituição que senti, por exemplo, confiança em meu trabalho, alguma liberdade de cátedra, a possibilidade de inventar e propor, condições mínimas de estudar sem que parecesse um favor institucional. Eu me aprimorei muito estando no CEFET-MG, persistindo contra ele também, às vezes; e a instituição se transformou, com a nossa presença cada vez mais visível. Hoje temos um curso nota máxima, sem problemas de procura (embora a evasão seja sempre um desafio); temos uma pós de ótimo conceito, também muito disputada; além de continuarmos atuando na base, isto é, nas disciplinas do Ensino Médio que nos dizem respeito (Português, Redação, Literatura, Inglês). Estamos em todas as frentes e somos um grupo de clima geral muito bom e respeitoso.
3. A pesquisa é uma dimensão constante da sua vida acadêmica. Como você definiria sua principal linha de investigação e o impacto dela nos campos da linguística aplicada, dos multiletramentos e das tecnologias digitais no contexto atual do ensino?
A pesquisa é a dimensão da minha vida acadêmica de que mais gosto. Não escondo isso de ninguém. Sinto um prazer enorme em estudar, pesquisar, escrever, publicar. Desde o início da minha vida acadêmica, me dediquei ao impacto das tecnologias digitais na leitura e na escrita. É esse o grande tema a que me dedico, há cerca de três décadas. Minha formação em linguística veio desde a graduação, com meu TCC de bacharelado sobre leitura; depois o mestrado sobre leitura em telas; e o doutorado também sobre os impactos das tecnologias digitais na leitura de notícias digitais. Atualmente, e faz um tempo, pus foco na escrita. Com a emergência das inteligências artificiais gerativas, esse assunto ganhou um novo capítulo, e muito polêmico. Junto com isso, estou sempre atenta às questões da edição de textos. Isso é parte do interesse no grande tema da escrita, afinal. E não apenas para fins escolares, mas para repensar a publicação de maneira mais ampla, no mercado editorial, por exemplo. Nunca arredei pé desses assuntos. Eles me mobilizam profissionalmente de várias maneiras. Lembrando que, primeiro, fui escritora. É isso que dispara meu interesse, e ele irradia para as demais atividades. Sou linguista aplicada, formada num momento em que poucos programas de pós do Brasil tinham esse diploma. Na pós-graduação, aprendi e adotei a noção de letramento, que foi muito produtiva para minhas pesquisas e para minha prática docente. Desaguei, então, nos multiletramentos, que conheci melhor quando fiz um estágio pós-doutoral com a professora Roxane Rojo, na Unicamp, mais de uma década atrás. No CEFET-MG, fizemos a tradução do manifesto da pedagogia dos multiletramentos (com a autorização de Harvard) e isso permitiu que mergulhássemos no tema de uma nova maneira. Não falta assunto quando pensamos na relação entre linguagem, leitura, escrita e tecnologias. Quando comecei, no final da década de 1990, não foi simples encontrar apoio e orientadores… Veja só o que aconteceu depois!
4. O Prêmio Jabuti representa um reconhecimento raro e significativo. Como essa conquista dialoga com sua trajetória e de que forma impactou sua visão sobre escrita, edição e circulação do livro no Brasil?
Nunca imaginei conquistar um Jabuti. Ele foi uma das coisas mais legais que me aconteceram como escritora. Um reconhecimento raro mesmo e improvável. Minha trajetória como escritora é lenta, insistente e bastante incômoda para mim. Se não fosse uma questão interna, que é meu enorme prazer e amor pela escrita, eu já teria desistido. Não nasci numa família de intelectuais que sabiam o caminho das pedras. Era muito improvável que eu me tornasse escritora. Mas me tornei. Cavei e aproveitei muitas situações, publiquei muitos livros e alguns deles alcançaram algum reconhecimento. Isso dialoga diretamente com meu projeto de vida, digamos. Tem relação diretíssima com meus sonhos de adolescência, com meus desejos mais profundos, com a admiração que sempre nutri pelas coisas que dizem respeito à língua, à leitura e à escrita. Recebi alguns prêmios menos conhecidos antes do Jabuti. Quando, em 2022, fui agraciada naquela noite, no Teatro Municipal de São Paulo, com transmissão ao vivo pelo YouTube, e recebi o carinho de parentes e amigos, vivi um dia muito especial. Mas não subo no salto. Sou filha de gente que tem os pés bem plantados no chão. O glamour dura cada vez menos. O reconhecimento é logo esquecido externamente. O negócio é ter novos projetos e continuar trabalhando. Livros literários, no Brasil, circulam relativamente mal. Estou nessa área há mais de trinta anos, mais da metade da minha vida. É um aprendizado constante.
Recebendo o Jabuti Juvenil 2022 junto com um de meus editores, Mário Silva, da RHJ.
5. Seus livros transitam entre poesia, contos e crônicas. Existe uma ponte entre sua produção literária e sua atuação como pesquisadora? Você sente que essas dimensões se complementam ou operam em registros distintos?
Costumo dizer que gosto de escrever. E ponto. Comecei pela poesia, que jamais abandonei. Enveredei pela crônica, o que também faço comprometida e regularmente. Passei pelo conto, que me trouxe algumas alegrias. Passeei pelos livros infantis e juvenis, que me dão alegrias também. Sempre perguntam pelo romance… Quem sabe? Falta tempo – ou organização – para investir nele. Na vida de pesquisadora, a escrita é fundamental. Quando ela não é encarada apenas como um relatório que qualquer IA pode fazer, ou seja, quando a escrita é admitida como a elaboração do pensamento humano, ela é um elo forte da carreira da cientista, da professora-pesquisadora. Essas dimensões da minha vida se encontram, sim, nos meus textos. Minha escrita acadêmica não dista muito do que faço na literatura. É claro que são textos diferentes, a gente lida de modos distintos na hora de escrever, mas uso muito do que aprendo nesses dois universos fazendo intercâmbios entre eles. E dizem que escrevo simples. Não gosto mesmo de textos empolados. Quero ser lida, entendida, quero conquistar, trazer para perto. É distinto, mas uma coisa se alimenta da outra.
6. Ao orientar diversos trabalhos acadêmicos, você participa diretamente da formação de novos pesquisadores. Como enxerga o papel da orientação na construção de futuros profissionais da área de linguagem? Se considerar pertinente, poderia mencionar alguma experiência marcante nesse processo?
É uma das coisas mais gratificantes que vivo como docente-pesquisadora. A formação de mestres e doutores, mestras e doutoras, é muito emocionante para mim. Sou a única doutora formada da família, ainda. Isso era impensável, quando eu era jovem. Me tornar formadora então… Na carreira de pesquisadora, a orientação ocupa um espaço imenso, exige muito tempo e dedicação. É claro que sabemos que há orientadores e orientadores… Eu sou controladora, então gosto de saber tudo, leio, comento, levo à defesa somente aquilo em que acredito minimamente. Os trabalhos não são meus, nem são coautorados por mim. O que faço é oferecer interlocução qualificada para essas pessoas que me procuram e que confiam na minha experiência. Participo da formação de alto nível de novos pesquisadores, mas não só; formo gente qualificada como professores e outros profissionais. Algumas experiências marcantes são aquelas em que, organicamente, me tornei amiga e parceira de ex-orientandas (a maioria mulheres). Muitas vezes, dou vexame! Choro nas defesas porque sei o que aquela pessoa passou para conquistar esse título. Não tem vida fácil, nem momento ideal para ninguém. As pessoas têm uma ilusão sobre isso… Vivi momentos muito tristes com orientandas, algumas passando por dificuldades inimagináveis, mas que defenderam no prazo ou perto dele, trabalhos de grande qualidade. É bonito demais de ver e, em muitos casos, tem impacto real sobre a vida da pessoa. Não é só título, quando é feito com envolvimento e dedicação. É também a ampliação exponencial de conhecimento, a conquista de uma escrita organizada, de resultados importantes, de um novo modo de pensar, de uma proposição que contribui socialmente, além de, em grande parte das vezes, concorrer para um aumento de salário, por exemplo, o que tem impacto sobre filhos e uma vida mais digna (isso para quem tem plano de carreira justo). No caso de muitas mulheres, isso tem relação com emancipação e liberdade de escolha. Acompanhei a pesquisa e vi a defesa de teses e dissertações em que as pessoas se envolveram profundamente. Infelizmente, não são todos assim, mas os que são… Deixam a gente emocionada como o diabo, como disse o poeta.
7. Em um cenário de transformações digitais aceleradas, quais desafios você identifica hoje para a educação e para o campo editorial? E quais perspectivas ou projetos a animam mais neste momento?
Talvez a transformação mais destacada hoje seja a inteligência artificial gerativa, essa que gera textos e ilustrações, principalmente. Ela tem impacto direto na nossa atuação no mercado editorial, e isso tem sido estudando. No caso da docência, estamos também num dilema. Muitas escolas querem mostrar serviço, estão preocupadas em vender a ideia de inovação, e se esquecem de que a escrita, por exemplo, é uma das finalidades precípuas do ensino de língua. Não é qualquer coisa. Tem a ver com nossa atuação direta e com efeitos que ainda desconhecemos. É claro que a IA já invadiu meus temas de pesquisa e de aulas. O negócio é estudar, experimentar e pensar.
8. Em sua trajetória, quais valores ou experiências pessoais foram fundamentais para sustentar suas escolhas profissionais, especialmente nos momentos de maior desafio ou mudança?
É difícil pensar nisso ou me lembrar, mas, por exemplo, nunca abandonei as coisas que amo fazer. Nem todas elas, infelizmente, são capazes de sustentar uma vida de adulta. Por exemplo, não vivo da escrita, digo, de maneira direta. Vivo da docência em uma boa escola pública. Não fosse isso e eu não teria autonomia na vida, talvez nem mesmo dignidade. Minhas escolhas foram relativas, então. Talvez ninguém possa, de fato, escolher. Alguns valores que me guiaram foram o amor por determinados temas, a condição de abordá-los diariamente, entregando meus dias de vida ao trabalho, sem me deprimir ou enlouquecer demais com o passar dos anos. Diante do compromisso de ser professora, é um valor me empenhar, fazer o melhor possível, desobedecer quando algo de estranho ou burro acontece, tentar avançar em temas e resultados que tendem a não sair do lugar (a educação é uma área lenta e muito interrompida…). É valor ser ética com estudantes e colegas, estar à disposição com o maior senso de colaboração possível. Trabalhar em grupo não é fácil, todos sabemos, mas precisa ser possível. Respeitar e ser respeitada… Outro valor ao qual dou cada vez mais importância. Por estudantes e por colegas, claro. Mas não posso deixar de dizer que as pessoas precisam enxergar futuro em suas vidas, precisam confiar em alguma perspectiva mais ou menos promissora. É preciso pensar em dinheiro, em condições de trabalho, em dignidade para viver, em descanso, em condições de desenvolver outras dimensões da vida que dependem da dimensão da formação e do trabalho. Claro, fazer confluir tudo isso continua sendo um enorme desafio.
9. Educação e literatura são forças de transformação social. Como você percebe o impacto do seu trabalho para além da academia, na comunidade leitora e na formação cultural mais ampla?
É difícil imaginar que impacto pode ter o meu trabalho de formiguinha invisibilizada em Belo Horizonte… O esforço que sempre fiz é muito desproporcional aos resultados que eventualmente alcanço. É exaustivo e desanimador, mas tiramos força todo dia de algum lugar, não é mesmo? Localmente, meu trabalho ajuda na formação de dezenas, talvez centenas, de pessoas que vão pela cidade, pelo estado, pelo país, eventualmente pelo mundo. Formo leitores e leitoras, dentro do possível, porque lido com adultos e adultas, jovens já no Ensino Médio. É meio nadar contra a corrente, como sabemos. Meus livros chegam a leitores e leitoras, especialmente aqueles que são distribuídos pelo PNLD, nosso plano nacional que faz se mexerem muitas engrenagens do mercado editorial. É pena que não dê para confiar no Brasil o tempo todo. Nascemos e vivemos na incerteza e na inconstância! Dentro do possível, tento espalhar leitura e escrita por onde vou, seja no segmento dos textos literários, seja em outros. Mas é trabalho miúdo, diário, persistente e… cansativo.
10. Existe algum momento de dúvida, fragilidade ou reinvenção que tenha sido decisivo na construção da profissional que você é hoje?
Claro! Quem nunca? Fui uma mestranda que trabalhava em empresa privada; uma doutoranda trabalhadora com filho bebê e marido-obstáculo. Você acorda todo dia tendo de puxar um vagão pesado. Tive dúvida sobre a docência sempre. Agora faz mais sentido pensar na aposentadoria do que ficar viajando na ideia de abandonar a carreira ou mudar de profissão. Mas passei por isso várias vezes. Logo que me formei, algumas de minhas primeiras experiências como professora de escolas privadas foram terríveis, aterradoras. Se eu tivesse encontrado esteio em outra área, teria desistido das aulas e das escolas; na verdade, das escolas. No ensino superior privado, a ameaça de desemprego era constante. Isso inviabiliza a vida adulta de alguém que precisa de segurança. Tive de persistir, enfrentar gente, superar medos, me submeter a condições ruins, ouvir promessas mentirosas, trabalhar 80 horas por semana e receber por 20, dar conta de equilibrar mil pratos, fazer escolhas difíceis para me livrar de pesos mortos, tomar decisões que me deixavam triste, com saudade, com culpa etc. E embora possamos ser mais respeitadas à medida que avançamos, na idade e na carreira, continuamos passando por situações esquisitas: colegas mais jovens desrespeitosos, mudanças tecnológicas que nos desestabilizam, regras de aposentadoria que nos prejudicam sempre, não há paz. Minha sensação é de que estamos sempre frágeis.
11. Ao olhar para sua trajetória, que traços da Ana Elisa de antes da carreira acadêmica ainda permanecem vivos na professora, pesquisadora e escritora que você se tornou?
O traço que se mantém é o gosto pelos temas que sempre me encantaram. Continuo adorando ler, escrever e falar disso. Os alunos e as alunas percebem logo a minha paixão. Acho que isso tem influência sobre o que consigo conquistar, as aproximações que provoco. Estou cansadíssima de muitas coisas, mas ter sempre o que estudar e tratar de leitura/escrita continuam me mobilizando muito. Hoje, é claro, eu às vezes fico ansiosa por me aposentar, mas não para ficar à toa. A ideia é me dedicar mais a essas paixões e evitar a quantidade enorme de interrupções que sofro. Por incrível que pareça, a docência não é exatamente uma atividade vizinha da leitura e da escrita (mesmo quando elas são exigidas!). Isso é algo decepcionante com que tenho de lidar permanentemente. Muitas vezes, penso que queria parar certas atividades e ficar só viajando por aí com o namorado sensacional que conheci aos 50 anos! Mas ainda não dá e talvez jamais dê. O negócio é ir com mais calma, de maneira mais seletiva, para chegar ao encerramento da carreira com boas memórias, certo senso justo de ter contribuído e sem muito ressentimento. Se formos esquecidos, não terá sido por falta de trabalho e compromisso.
12. Se seus alunos e leitores pudessem lembrar de você não pelos títulos ou prêmios, mas por uma marca humana, qual você gostaria que fosse?
Nossa! Não é fácil responder a isso. Talvez eu gostasse de ser lembrada como alguém que realmente torceu – e trabalhou – pela melhor formação possível para todos eles e elas, numa instituição pública e gratuita, onde eles e elas foram recebidos com seriedade e respeito às suas inteligências e capacidades criativas; onde foram encorajados(as); onde não permiti que desistissem, quando isso poderia acontecer; onde me emocionei de verdade ao vê-los e vê-las se aprumando.
Fabíola Farias é uma das mais importantes especialistas em literaturas e livros para infâncias que eu já vi. É impressionante como ela conhece desse riscado. Fomos colegas de faculdade, décadas atrás, e me lembro de que ela já se destacava. Anos depois, tive a alegria de fazer parte de suas bancas de mestrado e doutorado na UFMG. Em 2024, ela fez um estágio pós-doutoral no CEFET-MG, sob minha supervisão, mas daquele jeito: nem precisava. Tenho certeza de que aprendi muito mais do que ela nessa troca.
Além de ser uma estudiosa, Fabíola é uma fazedeira. É dessas pessoas que realizam muitas coisas, e de um jeito sempre muito distribuído e coletivo. É produtora cultural, curadora, gestora e o que mais vier. Entre suas realizações, inclusive do pós-doc, está o livro sobre crianças e livros em Belo Horizonte, que põe no lugar, com justiça, a importância da nossa cidade na cena nacional da literatura infantil e juvenil.
Outro produto legal das fazeções da Fabíola foi me convidar para organizar com ela o Livros para a infância, um livro concebido por nós e escrito por uma turma de especialistas muito bons no assunto. Aliás, a obra já está aprovada no PNLD para a formação de professores da educação infantil. Não damos ponto sem nó.
Livros para a infância trata de muitos aspectos das literaturas e dos livros para esse público. O segmento é um espaço de disputa feroz. Vale muito a leitura e o estudo dessa referência que a editora Moinhos põe na roda, aliás, por meio da nossa coleção Pensar Edição.
Novembro tem sido e continuará sendo um mês de muitas atividades. Final de ano é sempre meio caótico, não? Como lidar? Lançamentos de livros (os últimos do ano, meu e de colegas), mediações, finalizações e alguns eventos já no apagar das luzes. Tem SimLer e acabou de ter participação no Fórum das Letras de Ouro Preto, ao qual eu não ia fazia tempo. Como gosto dessa cidade!
Lançamentos de livros na Outras Palavras Livraria, na manhã de sábado, 8 de novembro, às 10h30, com o editor Rauer e a escritora Luísa Coelho.
Dois lançamentos de colegas se anunciam: o da Gabriela Romeu com a Flávia Bomfim, pela Peirópolis, em São Paulo, e o do Leonardo Piana, pela Autêntica Contemporânea, em BH. Todos presenciais e em belas livrarias.
O finalzinho do mês será de conferência no SimLer e ufa! Tudo feito com amor <3.
Das atividades de outubro, certamente a visita das professoras Jenny Guerra (México) e Camila Escudero (Equador) e a Molla (dentro do FliBH) foram as mais intensas. Tivemos visita de editores, professores e muita conversa boa. Como diz meu amigo Nathan Matos, editor da Moinhos: isso reenergiza.
CEFET-MG
Inhotim
No início do mês, Jenny e Camila estiveram no CEFET-MG para palestras e aulas, tanto na graduação em Letras, quanto na pós-graduação em Estudos de Linguagens. Não faltaram também atividades culturais, visitas a museus e centros de gastronomia mineira. Essa visita certamente fortaleceu nossos laços de colaboração profissional e de amizade. Importante salientar a conexão entre CEFET-MG e Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) por meio do Seminário Indústria da Informação Digital (SIID).
Mesa na Molla/FliBH
Com Luciana Tanure
No final do mês, realizamos a Mostra do Livro Latino-americano (MOLLA) dentro das atividades do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FliBH), parceria muito produtiva. Fiz parte da equipe de curadores da MOLLA, encabeçada pela Luciana Tanure. Oferecemos mesas, palestras, contações de histórias, feira de livro e muito mais. Cansa? Cansa. Mas também gratifica muito. Foi a culminância de um trabalho de muitos meses. A programação pode ser vista aqui.
No meio disso, lancei o livroEscrever e ensinar a escrever (Editora da Unimontes), que começa a circular por aí e me dá alegria. O pdf em acesso aberto fica aqui, e a versão impressa chegará às mãos de algumas centenas de pessoas. Torço para que gostem do trabalho.
Faz um tempo, eu soube que a Unimontes e sua editora lançariam um edital para livros de divulgação científica, isto é, obras escritas numa linguagem acessível e para públicos mais amplos do que meus pares acadêmicos. Mais ou menos isso.
Juntei um material que andava disperso por aí e editei esse original. Eram textos que publiquei no Blog da Parábola e na Revista Ponte, mas que tinham circulação mais restrita ou esquecida. Ajeitei, organizei, revisei, ampliei… Escrevi mais um texto sobre a tal da IA e o que ela tem causado no ensino de língua materna… Se é que tem… E fui lá concorrer.
O resultado foi a aprovação da proposta. Isso me deixou muito feliz. Tenho enorme carinho pela Unimontes, e a reunião desse material me deixa muito animada e feliz. Melhor ainda: por ter apoio institucional, o livro será distribuído gratuitamente em escolas públicas (uma tiragem inicial) e depois será liberado como pdf de acesso aberto no site da editora. Isso faz qualquer pesquisadora se sentir muito gratificada.
Olha que capa linda!
Sou professora de Redação no ensino médio. Antes disso, sou escritora e sempre fui uma apaixonada pela escrita e pela língua. Formei-me linguista (e não por ter menos amor à literatura) e atuo também em outros níveis de ensino – graduação e pós – justamente orientando pessoas que escrevem. Se não dou aulas disso (às vezes, sim, como as oficinas de criação no bacharelado em Letras do CEFET-MG), a missão de ajudar que pessoas desenvolvam suas escritas atravessa toda a minha atividade profissional.
O livro que lançamos agora é, então, resultado de estudo e empiria. Estou lá, com as duas mãos na massa e o coração ativo, nas salas de aula dos três níveis de ensino. Vamos comigo?
O lançamento de Escrever e ensinar a escrever, um antimanual para docentes, é dia 18 de setembro, pelo canal do YouTube da Editora da Unimontes. O livro tem paratextos de Carla Coscarelli (UFMG) e Marcos Marcionilo (Parábola Editorial). Um luxo só, e ainda ser editada pela Maria Clara Maciel e equipe. Sigamos! Tomara que as pessoas leitoras gostem!
Desde 2018, o grupo de estudos e pesquisas Mulheres na Edição contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, a Fapemig, como financiadora única do nosso trabalho, em especial nosso projeto de pesquisa que mapeia mulheres que editam em Minas Gerais (e além). Somos um grupo de estudos que começou mais ou menos com a proposta de um clube de leitura: escolheríamos um texto por mês para ler. Os encontros seriam mensais e teríamos condições de comentar nossas leituras e dialogar sobre elas.
Bem, a despeito de toda a forçação para que paremos de estudar e de fazer o que realmente interessa, o fato é que o grupo resiste bravamente e está em atividade até hoje. Ou seja, são aproximadamente sete anos ininterruptos de leituras, mais de 60 textos/encontros e vários aniversários comemorados. As coordenadoras somos eu e as queridas colegas Rosário Pereira e Renata Moreira, ambas do CEFET-MG. É um grupo dedicado e propositivo, que fez e publicou muita coisa nesses anos, além de reunir muita gente (mais de 400 inscritos/as) em torno do tema das mulheres no mercado editorial, de forma pioneira no país. Somos bastante reconhecidas dentro e fora do Brasil e fazemos parte de redes por aí que estão atentas ao nosso trabalho.
Ao finalizar nosso projeto junto à Fapemig, passamos aquele aperto da prestação de contas (porque é burocrático mesmo) e ainda tive de fazer um pitch, que é um vídeo curto que resume bem o que aconteceu no projeto.
Poxa, como foi difícil! O primeiro pitch a gente nunca esquece! Lá vai ele, que não me deixa exatamente orgulhosa pelo visual, mas sim pelo trabalho importante que nosso grupo fez ao longo dos anos.