Mês: abril 2026

A grata notícia da publicação

A vida acadêmica produtiva exige paciência. É o que muita gente não tem. A ansiedade é um mal que acomete sem distinção. Mas o que se pode fazer? Talvez tenhamos desaprendido a entender o tempo das coisas e das pessoas que as fazem. Por outro lado, muita coisa anda mesmo atrasada e atravancada, o que nos deixa em maus lençóis.

Dizem que precisamos pesquisar. Quanto tempo uma pesquisa exige? Que precisamos escrever? De quanto tempo precisamos dispor para escrever um artigo? E para publicá-lo, se estiver bom? Uma revista leva cerca de um ano para dar uma resposta ou para publicar de fato um texto, isso quando é organizada. No Brasil, a tendência à precarização e à descontinuidade nos deixa, quase sempre, com um sentimento de suspensão e de frustração. Somos nós mesmos e nossos colegas que editamos as revistas, e elas nunca estão tão boas quanto poderiam (e deveriam). Tudo depende muito de um empenho pessoal ou de pequenos grupos, se tudo o mais ao redor funcionar. E geralmente não funciona. Editei algumas revistas, algumas vezes, e só não sofri mais porque tinha colegas muito razoáveis comigo. E nem isso é garantido. A sensação de brigar contra a própria instituição em que estamos produz um cansaço imenso, e desanima.

Lidar com a escrita parece sofrido para muitas pessoas. Não sou uma delas. Escrever sempre foi um oásis para mim. Não é nenhuma mágica. Me dispus para a escrita desde bem cedo e entendi que ela seria minha travessia para muitas coisas. Fiz mestrado e doutorado com prazer (mesmo conciliando com trabalho mal remunerado, filho pequeno, marido abusivo e tudo). Entendi que minha carreira dependeria da escrita de um modo cadenciado. O negócio é como correr (a estratégia), e talvez eu tenha aprendido isso na pista de atletismo da minha boa escola pública da juventude: não dá para queimar toda a energia nos primeiros metros. O lance é a constância, a depender da modalidade da corrida. A vida acadêmica é uma corrida de longa distância. Também aprendi isso com um amigo que gostava de dirigir na estrada e chegar bem ao outro lado, em tempo razoável. É claro que pode haver intercorrências: problemas de saúde, mortes, cuidados extremos… Isso paralisa. Mas se não acontecer, as coisas me parecem administráveis.

Se alguém está sempre pesquisando, sempre escrevendo um pouco, sempre observando as oportunidades, também poderá estar sempre cumprindo o que precisa para entrar e se manter na vida acadêmica. Manter… É o mais complicado. Sobretudo quando não fazemos parte do elenco de três ou quatro universidades mais visíveis… A luta é bem grande.

Há uns dias, recebi a boa notícia da publicação de um capítulo em um livro no México, em coautoria com uma colega muito especial, a Jenny Guerra. Em 2025, ela esteve por aqui comigo, em Belo Horizonte, quando firmamos ainda mais nossos laços feitos pela internet. Vimos trabalhando juntas há tempos. O texto está no livro Tendencias de la investigación bibliotecológica y estudios de información, que deixo aqui e que pode ser baixado livremente. Derivou de um evento do qual participamos no Instituto de Investigaciones Bibliotecológicas y de la Información da Universidad Nacional Autónoma de México (Unam), no final de 2025. Fiquei feliz quando Jenny me enviou o arquivo.

Nosso capítulo tem uma história de meses, com algumas curiosidades. Escrevemos a partir de uma provocação da Jenny para que comparássemos algumas editoras brasileiras e os usos da inteligência artificial gerativa. Levamos semanas entrevistando pessoas, estudando, lendo e produzindo juntas cada linha. Com isso pronto, submetemos o artigo a uma revista brasileira, que reprovou nosso trabalho com dois pareceres curiosos. Havia elogios, sim, mas havia ressalvas peculiares.

O texto ainda estava em português. Uma das ressalvas arriscava dizer que nossa tradução fora feita com alguma IA… Eu só pude rir. Não era. Era pura tecnologia analógica. Isso nos deixou também irritadas. Há pareceres que são justos; há outros que são pedantes; e essas coisas nem sempre se excluem. Bem, pegamos nosso texto de volta, consideramos alguns apontamentos mais sérios dos pareceres e voltamos as costas à revista, que segue tentando sobreviver. Enquanto isso, trabalhamos para o livro. E ele saiu. E nos deixou felizes. O texto talvez interesse a alguns colegas que lidam com nosso tema. A tradução ao espanhol é das colegas mexicanas, sem IAG. 🙂

Além da cadência necessária para produzir e manter a vida acadêmica on, é preciso ter paciência com muito mais coisas e entender que é sempre possível melhorar, sem abaixar a cabeça para o pedantismo anônimo. Vamos ao que interessa.

A intensidade (poética) de abril

Chegou abril. Outubro, inverno, melhor época do ano. Percebo que começo a me esforçar para não ficar ansiosa. Exercícios de respiração para dormir e para estar no mundo. Evitação de problemas. Estou entusiasmada. A alma quicando no corpo. O corpo não sabe direito o que fazer. Coração agitado, sangue apressado, sono assustado, sede, fome, oscilações. E nem gosto de altos e baixos. É que abril está intenso e as coisas semeadas começam a vingar todas ao mesmo tempo. Efeitos do calendário, inclusive o religioso – além das crises econômicas. Do Natal ao Carnaval não acontece nada, tudo represado. O ano começa em março, por exemplo, e aí tudo se precipita. E quase não aguento. Na maior parte, são alegrias para administrar.

Chegou primeiro o poemário da Moinhos. Meu primeiro lá, depois de livros de crônicas e acadêmicos. Uma provocação do meu amigo e parceiro Nathan Matos. Estamos às voltas com a capa porque a paleta me incomodou, depois de duas tentativas. E com o miolo, porque eu quis ajustar alguns textos. Já havia me esquecido deles. É um livro-conversa. Sério, um pouco nostálgico, humilde, reverente.

Daí a Peirópolis me enviou o livro que escrevi para a Biblioteca Madrinha Lua. Depois de doze títulos, resolvi entrar. A Renata Borges, editora maravilhosa, sempre dizia cadê o seu? E eu achava que não era hora, que não tinha ainda um original pertinente para aquele espaço cheio de homenagens. Finalmente, deu. Um dia, enviei. Foi uma alegria compartilhada. Está lá. Eis que, com algum atraso, a Gabriela, nossa designer, envia a capa e o miolo. No caso da BML, o projeto gráfico é um só, mas mudam as cores. Amei a composição da minha vez. Estou relendo, revendo. É emoção pura o que pus ali. Todo mundo que leu, e é pouca gente, falou de engasgos e lágrimas.

Quando nem espero mais, vem a Impressões de Minas e me envia o outro poemário, capa e miolo. Naquele estilo IM de ser, com facas, cores, dobras. É fascinante. Morri pela terceira vez. Tudo lá, com a secura irônica do que propus para esse poemário. Revi também.

Esquema básico de um livro impresso que podemos desafiar.

Nos três casos, os livros foram enviados às editoras há bastante tempo. Tanto que nem lembro mais direito dos poemas. Releio com distanciamento. Não me arrependo muito. E se me arrependo, sei que faz parte. Ou tiro. Ou repenso. Reescrevo, até. Não faz mal. Três conjuntos bem distintos um do outro. Não sei se a mesma voz. Talvez não. Um mais seco, outro mais conversado e outro puro afeto. Casas diferentes, estilos particulares.

Já começo a agradecer. Além de leitores e leitoras eventuais e segredosos, contei com o posfácio do Leonardo Villa-forte para o da Impressões. Só podia ser ele para falar daquela proposta. Outro tem prefácio da Mariana Ianelli, maga poeta, só ela para ler aquela emoção toda. Posfácio da Renata Borges, que tenta se esquivar, mas não pode, desta vez. E o posfácio da Alícia Duarte Penna, outra arquipoeta que poderia ler meus versos-conversa como ninguém mais. Ela mesma aparece como personagem num poema.

Lançar três livros “de uma vez” vai ser complicado. Nem sei se proporei festas. Pode não ser bom para os livros, para mim, para as editoras… E elas sabem dos meus projetos paralelos. Mas os processos editoriais aconteceram como puderam. Os poemários não foram escritos simultaneamente; nem enviados. Os atrasos os sincronizaram e vai parecer que eu não me contenho, que sou o que chamávamos aqui de “fominha”, na minha tenra adolescência. Não foi. Fiquei uns tempos sem publicar poesia, e eis que ela sai assim aos borbotões. Ao menos são três propostas bem diversas. As poucas pessoas interessadas poderão escolher, vá lá. Não digo ainda os títulos, mas a qualquer hora mostro as capas. Obrigada às editoras que apostam em poesia desde sempre, e se não fosse isso…

EDI-RED e a edição iberoamericana

A Biblioteca Virtual do Instituto Cervantes hospeda um acervo muito legal de semblanzas (verbetes) sobre editoras e editores iberoamericanos. Há uns anos, a profa. Pura Fernández me fez um convite para participar enviando textos sobre editoras brasileiras. Até tentei, mas não deu para coordenar bem a produção. Conseguimos de cá enviar alguma coisa, entre textos de estudantes e de professores.

Por estes dias, andei pesquisando no acervo deles e descobri dois vídeos de apresentações que fiz sobre edição e mulheres no Brasil. Estão disponíveis na Biblioteca e fiquei feliz por isso.

O primeiro esteve em um seminário de dezembro de 2020 e o segundo é de dezembro de 2021. As ocasiões exatas estão explicadas lá. Também está meu verbete para a Ediouro.

Podcast EdUFBA

Há algumas semanas, gravei um bate-papo sobre o futuro da edição universitária e da leitura para o podcast da Editora da UFBA. Foi uma atividade ligada também ao evento da ABEU de que já tratei aqui. A conversa foi com Jézio Gutierre, editor da Unesp, uma das maiores editoras universitárias do país. Para ouvir, é só clicar.

Seminário da ABEU

Já faz tempo que a Susane Barros, editora da EdUFBA, me falou do seminário da Associação Brasileira de Editoras Universitárias que aconteceria em Salvador. O evento ainda era uma ideia que Susane sabia que seria um bom desafio. Pronto, chegou! O seminário será em maio e logo farei minha malinha de mão para passar uns dias intensos na capital baiana. Vamos tratar da leitura, outro desafio enorme no Brasil.

A programação conta com um elenco muito interessante de pessoas ligadas ao universo da edição de livros, sobretudo acadêmicos, incluindo colegas de países vizinhos. Vale espiar o site e participar.

Ana Elisa • 2020