Mês: março 2026

Nome de mulher na Globo Minas

Há algumas semanas, a produção da Globo Minas entrou em contato perguntando sobre a existência de uma avenida com nome de mulher aqui na minha área. Escrevi um livro na coleção “BH. A cidade de cada um” sobre o bairro Renascença, onde moro, e foi isso que chamou a atenção. A avenida é a Clara Nunes, homenagem à cantora mineira que morou aqui na vizinhança, décadas atrás.

Conversa vai, conversa vem, lá fui eu gravar o papo com o Cadu, repórter que todo mundo ama. Foi bem ali na esquina, onde as placas são mais visíveis.

O programa ficou uma graça. Muita gente viu. Foi num sábado à tarde, logo pertinho do Dia da Mulher. Eis o Nome de Mulher.

Notícia sobre o programa.

Revista Salto

Há algumas semanas, uma jornalista entrou em contato para me pedir uma entrevista. Era a Camila Sol, ex-aluna especial de uma disciplina que ministrei há alguns anos na pós-graduação. Animada, sedenta, ela participou muito das atividades naquele momento, e se foi. Acalenta ainda o sonho de fazer um mestrado.Torço por ela. Torço por todas as pessoas que desejam estudar.

Na semana passada, Camila enviou os links para os textos publicados na Revista Salto. Fui capa. E me emocionei com o texto da jornalista ex-aluna. Não era só uma matéria; era uma homenagem.

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Com a autorização da Camila Sol, publico aqui a íntegra da entrevista que gerou o texto publicado.

1. Professora Ana Elisa, sua formação e seu envolvimento com a educação sempre estiveram no centro da sua trajetória. Poderia nos contar o que a levou a escolher esse caminho, desde sua formação inicial até sua consolidação no ensino técnico e superior?

É curioso porque não pensei primeiro em ser professora, em me envolver tão profundamente com a educação. Tive uma vida escolar, como aluna da Educação Básica, relativamente conturbada. E conheço mais pessoas como eu… Que foram parar na educação justamente porque sofreram com ela. Minha intenção, ao cursar Letras na UFMG, era trabalhar com livros. Eu já queria ser escritora e editora. Mas a formação para essa área ainda era superficial, não era fácil encontrar interlocução e nem empregos dignos. Com isso, embora eu jamais tenha deixado a escrita e a edição de lado, fui me tornando professora. As oportunidades na docência surgiram e eram mais palpáveis. Por alguns anos, trabalhei formalmente em editoras, mas também dava aulas à noite ou aos sábados, em instituições privadas. O caminho foi se fazendo, como diz o poema. Quando engravidei do meu filho, ficou óbvio que eu não poderia mais trabalhar três turnos! E na hora de escolher e priorizar, optei pelos empregos de professora, que eram mais consolidados. Eu já tinha também clareza de que precisaria estudar sempre. Fiz mestrado e doutorado. Isso me permitiu concorrer a uma vaga em uma boa instituição pública. Com isso, me firmei no compromisso com a educação, mas, claro, sem deixar de lado a escrita e a edição, que são meus temas de pesquisa e docência até hoje. Por onde passei, propus cursos, desenhei, implementei, encontrei colegas dispostos a serem parceiros nessas ideias e realizações. O caminho, então, fui trilhando à medida que tive de fazer escolhas na vida, embora eu me mantenha na teimosia de não deixar completamente nada do que gosto de fazer e estudar.

2. Sua atuação no CEFET-MG é amplamente reconhecida, especialmente por sua contribuição na criação de cursos e projetos inovadores, como o curso de Letras – Tecnologias da Edição. Quais momentos dessa trajetória você considera mais transformadores, tanto para a instituição quanto para você como educadora?

Não fui aluna do CEFET-MG, mas desde jovem sabia da excelência dele, em especial na educação técnica. Não tinha a menor ideia de que um dia atuaria ali. Quando fiz concurso, pessoas formadas em Letras, como eu, entravam para atuar no Ensino Médio. O grupo que assumiu na mesma leva que eu, junto com alguns veteranos muito ousados, isso somado à conjuntura local e nacional, ensejaram um ambiente propício para que propuséssemos o curso de Letras, muito inovador e corajoso, no tema da edição, e a pós-graduação (mestrado e, depois, doutorado). Esse momento nosso no CEFET-MG foi muito especial. Não se repetirá facilmente. Não é simples propor cursos e abrir essas possibilidades, encontrar um grupo coeso e determinado. Temos alguma noção de que é um legado para a cidade, no mínimo. A instituição, com isso, passou a receber mais pessoas, mais diversidade, inclusive ficou mais atrativa para docentes, que veem nela mais espaço de atuação qualificada e especializada. Não há cursos de Letras como o nosso no país, embora vários deles tenham até se inspirado em alguma coisa do nosso e também tenham se transformado um pouco. É claro que precisamos sempre estar atentos, melhorar, aprimorar. Todo curso de graduação precisa se revisar de tempos em tempos. Isso já foi feito e sempre será, por colegas de novas gerações. Minha carreira decolou mesmo depois que entrei no CEFET-MG e tive condições razoavelmente dignas para atuar como professora (nos três níveis de ensino) e como pesquisadora. Claro, não sem obstáculos e desafios que jamais se desfazem. É preciso ter paciência, persistência, insistência etc. Mesmo assim, foi nessa instituição que senti, por exemplo, confiança em meu trabalho, alguma liberdade de cátedra, a possibilidade de inventar e propor, condições mínimas de estudar sem que parecesse um favor institucional. Eu me aprimorei muito estando no CEFET-MG, persistindo contra ele também, às vezes; e a instituição se transformou, com a nossa presença cada vez mais visível. Hoje temos um curso nota máxima, sem problemas de procura (embora a evasão seja sempre um desafio); temos uma pós de ótimo conceito, também muito disputada; além de continuarmos atuando na base, isto é, nas disciplinas do Ensino Médio que nos dizem respeito (Português, Redação, Literatura, Inglês). Estamos em todas as frentes e somos um grupo de clima geral muito bom e respeitoso.

3. A pesquisa é uma dimensão constante da sua vida acadêmica. Como você definiria sua principal linha de investigação e o impacto dela nos campos da linguística aplicada, dos multiletramentos e das tecnologias digitais no contexto atual do ensino?

A pesquisa é a dimensão da minha vida acadêmica de que mais gosto. Não escondo isso de ninguém. Sinto um prazer enorme em estudar, pesquisar, escrever, publicar. Desde o início da minha vida acadêmica, me dediquei ao impacto das tecnologias digitais na leitura e na escrita. É esse o grande tema a que me dedico, há cerca de três décadas. Minha formação em linguística veio desde a graduação, com meu TCC de bacharelado sobre leitura; depois o mestrado sobre leitura em telas; e o doutorado também sobre os impactos das tecnologias digitais na leitura de notícias digitais. Atualmente, e faz um tempo, pus foco na escrita. Com a emergência das inteligências artificiais gerativas, esse assunto ganhou um novo capítulo, e muito polêmico. Junto com isso, estou sempre atenta às questões da edição de textos. Isso é parte do interesse no grande tema da escrita, afinal. E não apenas para fins escolares, mas para repensar a publicação de maneira mais ampla, no mercado editorial, por exemplo. Nunca arredei pé desses assuntos. Eles me mobilizam profissionalmente de várias maneiras. Lembrando que, primeiro, fui escritora. É isso que dispara meu interesse, e ele irradia para as demais atividades. Sou linguista aplicada, formada num momento em que poucos programas de pós do Brasil tinham esse diploma. Na pós-graduação, aprendi e adotei a noção de letramento, que foi muito produtiva para minhas pesquisas e para minha prática docente. Desaguei, então, nos multiletramentos, que conheci melhor quando fiz um estágio pós-doutoral com a professora Roxane Rojo, na Unicamp, mais de uma década atrás. No CEFET-MG, fizemos a tradução do manifesto da pedagogia dos multiletramentos (com a autorização de Harvard) e isso permitiu que mergulhássemos no tema de uma nova maneira. Não falta assunto quando pensamos na relação entre linguagem, leitura, escrita e tecnologias. Quando comecei, no final da década de 1990, não foi simples encontrar apoio e orientadores… Veja só o que aconteceu depois!

4. O Prêmio Jabuti representa um reconhecimento raro e significativo. Como essa conquista dialoga com sua trajetória e de que forma impactou sua visão sobre escrita, edição e circulação do livro no Brasil?

Nunca imaginei conquistar um Jabuti. Ele foi uma das coisas mais legais que me aconteceram como escritora. Um reconhecimento raro mesmo e improvável. Minha trajetória como escritora é lenta, insistente e bastante incômoda para mim. Se não fosse uma questão interna, que é meu enorme prazer e amor pela escrita, eu já teria desistido. Não nasci numa família de intelectuais que sabiam o caminho das pedras. Era muito improvável que eu me tornasse escritora. Mas me tornei. Cavei e aproveitei muitas situações, publiquei muitos livros e alguns deles alcançaram algum reconhecimento. Isso dialoga diretamente com meu projeto de vida, digamos. Tem relação diretíssima com meus sonhos de adolescência, com meus desejos mais profundos, com a admiração que sempre nutri pelas coisas que dizem respeito à língua, à leitura e à escrita. Recebi alguns prêmios menos conhecidos antes do Jabuti. Quando, em 2022, fui agraciada naquela noite, no Teatro Municipal de São Paulo, com transmissão ao vivo pelo YouTube, e recebi o carinho de parentes e amigos, vivi um dia muito especial. Mas não subo no salto. Sou filha de gente que tem os pés bem plantados no chão. O glamour dura cada vez menos. O reconhecimento é logo esquecido externamente. O negócio é ter novos projetos e continuar trabalhando. Livros literários, no Brasil, circulam relativamente mal. Estou nessa área há mais de trinta anos, mais da metade da minha vida. É um aprendizado constante.

Recebendo o Jabuti Juvenil 2022 junto com um de meus editores, Mário Silva, da RHJ.

5. Seus livros transitam entre poesia, contos e crônicas. Existe uma ponte entre sua produção literária e sua atuação como pesquisadora? Você sente que essas dimensões se complementam ou operam em registros distintos?

Costumo dizer que gosto de escrever. E ponto. Comecei pela poesia, que jamais abandonei. Enveredei pela crônica, o que também faço comprometida e regularmente. Passei pelo conto, que me trouxe algumas alegrias. Passeei pelos livros infantis e juvenis, que me dão alegrias também. Sempre perguntam pelo romance… Quem sabe? Falta tempo – ou organização – para investir nele. Na vida de pesquisadora, a escrita é fundamental. Quando ela não é encarada apenas como um relatório que qualquer IA pode fazer, ou seja, quando a escrita é admitida como a elaboração do pensamento humano, ela é um elo forte da carreira da cientista, da professora-pesquisadora. Essas dimensões da minha vida se encontram, sim, nos meus textos. Minha escrita acadêmica não dista muito do que faço na literatura. É claro que são textos diferentes, a gente lida de modos distintos na hora de escrever, mas uso muito do que aprendo nesses dois universos fazendo intercâmbios entre eles. E dizem que escrevo simples. Não gosto mesmo de textos empolados. Quero ser lida, entendida, quero conquistar, trazer para perto. É distinto, mas uma coisa se alimenta da outra.

6. Ao orientar diversos trabalhos acadêmicos, você participa diretamente da formação de novos pesquisadores. Como enxerga o papel da orientação na construção de futuros profissionais da área de linguagem? Se considerar pertinente, poderia mencionar alguma experiência marcante nesse processo?

É uma das coisas mais gratificantes que vivo como docente-pesquisadora. A formação de mestres e doutores, mestras e doutoras, é muito emocionante para mim. Sou a única doutora formada da família, ainda. Isso era impensável, quando eu era jovem. Me tornar formadora então… Na carreira de pesquisadora, a orientação ocupa um espaço imenso, exige muito tempo e dedicação. É claro que sabemos que há orientadores e orientadores… Eu sou controladora, então gosto de saber tudo, leio, comento, levo à defesa somente aquilo em que acredito minimamente. Os trabalhos não são meus, nem são coautorados por mim. O que faço é oferecer interlocução qualificada para essas pessoas que me procuram e que confiam na minha experiência. Participo da formação de alto nível de novos pesquisadores, mas não só; formo gente qualificada como professores e outros profissionais. Algumas experiências marcantes são aquelas em que, organicamente, me tornei amiga e parceira de ex-orientandas (a maioria mulheres). Muitas vezes, dou vexame! Choro nas defesas porque sei o que aquela pessoa passou para conquistar esse título. Não tem vida fácil, nem momento ideal para ninguém. As pessoas têm uma ilusão sobre isso… Vivi momentos muito tristes com orientandas, algumas passando por dificuldades inimagináveis, mas que defenderam no prazo ou perto dele, trabalhos de grande qualidade. É bonito demais de ver e, em muitos casos, tem impacto real sobre a vida da pessoa. Não é só título, quando é feito com envolvimento e dedicação. É também a ampliação exponencial de conhecimento, a conquista de uma escrita organizada, de resultados importantes, de um novo modo de pensar, de uma proposição que contribui socialmente, além de, em grande parte das vezes, concorrer para um aumento de salário, por exemplo, o que tem impacto sobre filhos e uma vida mais digna (isso para quem tem plano de carreira justo). No caso de muitas mulheres, isso tem relação com emancipação e liberdade de escolha. Acompanhei a pesquisa e vi a defesa de teses e dissertações em que as pessoas se envolveram profundamente. Infelizmente, não são todos assim, mas os que são… Deixam a gente emocionada como o diabo, como disse o poeta.

7. Em um cenário de transformações digitais aceleradas, quais desafios você identifica hoje para a educação e para o campo editorial? E quais perspectivas ou projetos a animam mais neste momento?

Talvez a transformação mais destacada hoje seja a inteligência artificial gerativa, essa que gera textos e ilustrações, principalmente. Ela tem impacto direto na nossa atuação no mercado editorial, e isso tem sido estudando. No caso da docência, estamos também num dilema. Muitas escolas querem mostrar serviço, estão preocupadas em vender a ideia de inovação, e se esquecem de que a escrita, por exemplo, é uma das finalidades precípuas do ensino de língua. Não é qualquer coisa. Tem a ver com nossa atuação direta e com efeitos que ainda desconhecemos. É claro que a IA já invadiu meus temas de pesquisa e de aulas. O negócio é estudar, experimentar e pensar.

8. Em sua trajetória, quais valores ou experiências pessoais foram fundamentais para sustentar suas escolhas profissionais, especialmente nos momentos de maior desafio ou mudança?

É difícil pensar nisso ou me lembrar, mas, por exemplo, nunca abandonei as coisas que amo fazer. Nem todas elas, infelizmente, são capazes de sustentar uma vida de adulta. Por exemplo, não vivo da escrita, digo, de maneira direta. Vivo da docência em uma boa escola pública. Não fosse isso e eu não teria autonomia na vida, talvez nem mesmo dignidade. Minhas escolhas foram relativas, então. Talvez ninguém possa, de fato, escolher. Alguns valores que me guiaram foram o amor por determinados temas, a condição de abordá-los diariamente, entregando meus dias de vida ao trabalho, sem me deprimir ou enlouquecer demais com o passar dos anos. Diante do compromisso de ser professora, é um valor me empenhar, fazer o melhor possível, desobedecer quando algo de estranho ou burro acontece, tentar avançar em temas e resultados que tendem a não sair do lugar (a educação é uma área lenta e muito interrompida…). É valor ser ética com estudantes e colegas, estar à disposição com o maior senso de colaboração possível. Trabalhar em grupo não é fácil, todos sabemos, mas precisa ser possível. Respeitar e ser respeitada… Outro valor ao qual dou cada vez mais importância. Por estudantes e por colegas, claro. Mas não posso deixar de dizer que as pessoas precisam enxergar futuro em suas vidas, precisam confiar em alguma perspectiva mais ou menos promissora. É preciso pensar em dinheiro, em condições de trabalho, em dignidade para viver, em descanso, em condições de desenvolver outras dimensões da vida que dependem da dimensão da formação e do trabalho. Claro, fazer confluir tudo isso continua sendo um enorme desafio.

9. Educação e literatura são forças de transformação social. Como você percebe o impacto do seu trabalho para além da academia, na comunidade leitora e na formação cultural mais ampla?

É difícil imaginar que impacto pode ter o meu trabalho de formiguinha invisibilizada em Belo Horizonte… O esforço que sempre fiz é muito desproporcional aos resultados que eventualmente alcanço. É exaustivo e desanimador, mas tiramos força todo dia de algum lugar, não é mesmo? Localmente, meu trabalho ajuda na formação de dezenas, talvez centenas, de pessoas que vão pela cidade, pelo estado, pelo país, eventualmente pelo mundo. Formo leitores e leitoras, dentro do possível, porque lido com adultos e adultas, jovens já no Ensino Médio. É meio nadar contra a corrente, como sabemos. Meus livros chegam a leitores e leitoras, especialmente aqueles que são distribuídos pelo PNLD, nosso plano nacional que faz se mexerem muitas engrenagens do mercado editorial. É pena que não dê para confiar no Brasil o tempo todo. Nascemos e vivemos na incerteza e na inconstância! Dentro do possível, tento espalhar leitura e escrita por onde vou, seja no segmento dos textos literários, seja em outros. Mas é trabalho miúdo, diário, persistente e… cansativo.

10. Existe algum momento de dúvida, fragilidade ou reinvenção que tenha sido decisivo na construção da profissional que você é hoje?

Claro! Quem nunca? Fui uma mestranda que trabalhava em empresa privada; uma doutoranda trabalhadora com filho bebê e marido-obstáculo. Você acorda todo dia tendo de puxar um vagão pesado. Tive dúvida sobre a docência sempre. Agora faz mais sentido pensar na aposentadoria do que ficar viajando na ideia de abandonar a carreira ou mudar de profissão. Mas passei por isso várias vezes. Logo que me formei, algumas de minhas primeiras experiências como professora de escolas privadas foram terríveis, aterradoras. Se eu tivesse encontrado esteio em outra área, teria desistido das aulas e das escolas; na verdade, das escolas. No ensino superior privado, a ameaça de desemprego era constante. Isso inviabiliza a vida adulta de alguém que precisa de segurança. Tive de persistir, enfrentar gente, superar medos, me submeter a condições ruins, ouvir promessas mentirosas, trabalhar 80 horas por semana e receber por 20, dar conta de equilibrar mil pratos, fazer escolhas difíceis para me livrar de pesos mortos, tomar decisões que me deixavam triste, com saudade, com culpa etc. E embora possamos ser mais respeitadas à medida que avançamos, na idade e na carreira, continuamos passando por situações esquisitas: colegas mais jovens desrespeitosos, mudanças tecnológicas que nos desestabilizam, regras de aposentadoria que nos prejudicam sempre, não há paz. Minha sensação é de que estamos sempre frágeis.

11. Ao olhar para sua trajetória, que traços da Ana Elisa de antes da carreira acadêmica ainda permanecem vivos na professora, pesquisadora e escritora que você se tornou?

O traço que se mantém é o gosto pelos temas que sempre me encantaram. Continuo adorando ler, escrever e falar disso. Os alunos e as alunas percebem logo a minha paixão. Acho que isso tem influência sobre o que consigo conquistar, as aproximações que provoco. Estou cansadíssima de muitas coisas, mas ter sempre o que estudar e tratar de leitura/escrita continuam me mobilizando muito. Hoje, é claro, eu às vezes fico ansiosa por me aposentar, mas não para ficar à toa. A ideia é me dedicar mais a essas paixões e evitar a quantidade enorme de interrupções que sofro. Por incrível que pareça, a docência não é exatamente uma atividade vizinha da leitura e da escrita (mesmo quando elas são exigidas!). Isso é algo decepcionante com que tenho de lidar permanentemente. Muitas vezes, penso que queria parar certas atividades e ficar só viajando por aí com o namorado sensacional que conheci aos 50 anos! Mas ainda não dá e talvez jamais dê. O negócio é ir com mais calma, de maneira mais seletiva, para chegar ao encerramento da carreira com boas memórias, certo senso justo de ter contribuído e sem muito ressentimento. Se formos esquecidos, não terá sido por falta de trabalho e compromisso.

12. Se seus alunos e leitores pudessem lembrar de você não pelos títulos ou prêmios, mas por uma marca humana, qual você gostaria que fosse?

Nossa! Não é fácil responder a isso. Talvez eu gostasse de ser lembrada como alguém que realmente torceu – e trabalhou – pela melhor formação possível para todos eles e elas, numa instituição pública e gratuita, onde eles e elas foram recebidos com seriedade e respeito às suas inteligências e capacidades criativas; onde foram encorajados(as); onde não permiti que desistissem, quando isso poderia acontecer; onde me emocionei de verdade ao vê-los e vê-las se aprumando.

Abril de 2017, no campus Nova Suíça.

Dia da Mulher e minhas mulheres

O Dia da Mulher, hoje, tem uma carinha meio fofa, mas serve para destacar um momento de luta por uma sociedade equânime (que estamos ainda longe de alcançar). Na véspera do dia 8 de março, infelizmente, assisti a vídeos terríveis de meninos que odeiam meninas, soube de más notícias sobre estrupros coletivos, me informei sobre dados desiguais quanto a profissões e salários. Não tem graça. Eu até me esquivo de receber os “parabéns”.

Muitas postagens foram feitas, ao contrário, para celebrar personalidades femininas revolucionárias e/ou notáveis. Geralmente, mulheres famosas, reconhecidas ou que foram apagadas por algum tempo e vêm à tona por seus feitos. Maravilha. Eu, no entanto, conheci algumas mulheres sensacionais bem de perto, e não sei se elas chegarão a virar estátuas ou nomes de rua.

Na minha vida, algumas mulheres foram e são fundamentais. Mas que coisa óbvia, Ana! A começar pela sua mãe. É… Parece óbvio, mas não é. Tá cheio de “filho da mãe” por aí. Mas além da minha mãe, que me trouxe ao mundo e que, mais do que isso, cuidou e cuida de mim, outras mulheres me estenderam a mão pela vida afora, de maneira muito efetiva, embora nem sempre derramada e explicitamente afetuosa.

Minha mãe até hoje faz umas rondas de ligações telefônicas para saber onde está cada filho (somos quatro) e se cada um está bem. Se eu gripar, ela quer saber da evolução e meu pai vem à minha casa me trazer remédio. O casal faz isso há mais de 50 anos. Que sorte! Tenho três irmãos, quer dizer, dois irmãos e uma irmã. Na adolescência não foi tão fácil, mas na vida adulta, ela e eu nos unimos em torno do cuidado de nossos pais e de nossos filhos. Ela é madrinha do meu, eu, do dela. Mais do que um título inócuo, isso fica consolidado na maneira como nos preocupamos com nosso dia a dia e como administramos tudo o que precisa ser resolvido. Isso inclui o fato de eu ser praticamente mãe solo há muitos anos e ter contado com uma rede de apoio que tinha uma maioria de mulheres.

Na dimensão profissional, não faltaram mulheres. É claro que isso também tem a ver com a área que escolhi: as Letras, desde sempre muito feminizada e desvalorizada. Mesmo assim, e por isso mesmo, algumas mulheres bem-sucedidas e que eu admirava boquiaberta foram tão importantes em minha trajetória. Desde a alfabetizadora (Fátima) até minha orientadora de doutorado, passando pela minha avó e pela minha tia mais jovem, todas fomentaram e/ou incentivaram o meu desenvolvimento. Minha avó e minha tia maternas por meio do incentivo constante à minha formação leitora; a professora Sônia Queiroz, na UFMG, por meio de projetos de extensão e pesquisa, além das minhas primeiras experiências de trabalho; a Sonia Junqueira, nas editoras, ensinando a editar com calma e firmeza (até hoje); a Vera Menezes, que oferecia disciplinas on-line na UFMG lá em 2001 (!), o que permitiu que uma aluna trabalhadora conseguisse cumprir créditos e se tornar pesquisadora e professora; a Carla Coscarelli, na UFMG, por meio das disciplinas ofertadas, das provocações que geraram pesquisas, da parceria como coautora, das orientações e de uma amizade que atravessou mais da metade da minha vida. No CEFET-MG, a professora Ana Maria Nápoles me recebeu com alegria e me estimulou a executar todas as ideias que pareciam malucas; Renata e Rosário, minhas colegas, tocaram comigo um grupo de estudos que já conta 8 anos!; Renata Amaral, do CP UFMG, é uma grande parceira de “mexidas” e “invenções de moda”; sem contar algumas alunas que me desenvolvem sempre como orientadora e professora. Isso para citar um pouquinho de gente. Há muito mais, claro.

Carla e eu posando para
a produção de um livro.
Rosário e Renata num encontro ligado ao Mulheres na Edição

Se não fosse essa mulherada, talvez eu não tivesse a chance de agarrar algumas oportunidades importantes. Foram elas que abriram espaços de formação e trabalho por onde eu passei. Efetivamente. É claro que houve homens nesse caminho, mas não nessas posições. Obrigada a todas. E não pensem que só digo isso hoje, nesta data; eu vivo reiterando a importância de cada uma em minha vida.

Férias sempre curtas

Mais de meia dúzia de pessoas me fez a pergunta fatal: E as férias, Ana? Eu respondo com honestidade: Foram curtas.

A sensação é de que nunca são suficientes. Saímos do ano letivo cansadas e retornamos… Cansadas. As poucas semanas de descanso não servem muito para descansar, de fato. Meu filho fez uma cirurgia, tentei arrumar a casa, os armários, limpar coisas, organizar o escritório, jogar objetos fora, separar roupas para doação, escrever minha literatura, mas não consegui ser completamente feliz em nada. Uma sensação de frustração e tristeza me pega de jeito na virada de dezembro para janeiro. O Paulo que o diga… Aguentou meu desespero por uns dias. Viajei, mas sem me deslocar demais, porque volto de viagens mais exausta do que fui. Então nada de exageros e invencionices. O negócio é não ter horários e dormir a sono solto, sem despertador para estragar a festa. Quando me pedem uma definição de férias, sempre digo: sem relógio, sem viagens e sem despertador.

Voltamos. Tivemos ainda uma colher de chá. Devido a um problemaço nos sistemas da instituição, o início do ano letivo foi adiado em uma semana. Preocupante e bom. Ufa, minha ansiedade durará uma semana mais, mas também meu despertador deixará de trabalhar por mais uns dias. O lado bom sempre tem o lado ruim como avesso. Sem-vergonha.

No semestre 1 de 2026, darei aulas na graduação mais do que em qualquer outro momento da minha carreira, que eu me lembre. Posso estar enganada, claro. E ministrarei uma disciplina hypada na pós. Vamos tratar de inteligência artificial gerativa ou… De escrita e humanidade, sem sermos bocós o suficiente para cair nessa de ChatGPT sem peias.

A turma mais procurada foi exatamente essa. Na pós, terei mais alunos do que na graduação. No bacharelado em Letras, conviverei com duas turmas de disciplinas obrigatórias e uma optativa. A menorzinha é a optativa, que começa à tarde, um horário que eu adoro.

Não atuarei por uns meses no Ensino Médio. Saudade daquela moçada de olhos vivazes. Tive boas experiências nos últimos anos. Volto logo.

Passei grande parte das… “Férias”… estudando e fazendo a curadoria dos textos dessas disciplinas. Não seria possível fazer isso dentro do período letivo. Quase nunca é. Só se estamos ministrando a mesma matéria há muito tempo, o que quase nunca é meu caso. Minha inércia é a do movimento. É bom e é ruim, aqueles avessos.

Darei aulas do final da tarde para a noite. Serão dias cheios. Evito qualquer outro tipo de atividade neles. Geralmente, minha energia vital mal dá para sustentar as aulas regulares.

No ano passado, tive a sorte da companhia de duas estagiárias docentes: uma doutoranda da UFMG e uma nossa; uma no ensino médio e outra na graduação. Júlia e Juliana. O barato foi que elas se conheceram e começaram a me acompanhar nos dois níveis de ensino, mesmo que não tivessem essa obrigação. Foi uma experiência ótima. Duas craques. Sentirei falta.

Neste ano, tive outra sorte: a de receber para um estágio pós-doutoral a colega e amiga Renata Amaral, professora doutora do Centro Pedagógico da UFMG. Renata vem pesquisar, inventar “mexidas”, como ela diz, e acompanhar duas disciplinas da graduação comigo. Tenho certeza de que será muito divertido e produtivo. Renata é dessas pessoas ligadas no 220v.

2026 tem me deixado temerosa. Não há escape. O negócio é mergulhar. E sempre preservando meus projetos e pondo limites onde é necessário.

Nosso grupo de pesquisa e estudo, o Mulheres na Edição, abriu as atividades do ano. Sandra e eu recebemos Nina Paim e Raissa Baptista para uma conversa sobre design e feminismo. Foi um encontro cheio (quase 40 pessoas) e muito interessante. Esses estudos mexem com a cabeça e os paradigmas da gente. Por isso é que vale a pena.

4, 3, 2, 1… Já vamos começar com o pé direito nas salas do campus Nova Suíça! Um bom semestre a todas e todos.

Ana Elisa • 2020