Autor: Ana Elisa Page 1 of 101

IA e multiletramentos

Toda palestra, todo evento, tem um bastidor que pode ser interessante. A professora Gabriela Barboza, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), entrou em contato comigo há meses convidando para um papo sobre multiletramentos durante a disciplina que ela ministrava naquele momento. Topei. Não nos conhecíamos, mas e daí? Era chance de trocar ideias com essa colega generosa, que conheceu meu trabalho e veio ter comigo. Combinamos, ajustamos, em dado momento em me enrolei, reajustamos, corrigimos a rota e pronto, deu certo.

A Gabriela sempre me disse que a turma era pequena, coisa de sete pessoas, mas muito interessada. Pedi a ela que não gravássemos nada, ando cansada disso. E era mesmo uma conversa pelo Meet, nada de transmissão e tal e coisa. Assim fomos.

Perto do dia do evento, perguntei à Gabriela se podia divulgar nas redes sociais. Por essas coisas algorítmicas meio misteriosas, o post bombou e apareceu um monte de gente querendo o link! Passei horas entregando-o e pedindo que não fosse espalhado sem critério. Pois bem: a turma de sete pessoas se tornou mais de cem, e o Meet não estava preparado e teve gente do lado de fora, sem conseguir entrar porque o programa pôs um limite que a Gabriela não conseguia desprogramar. E assim ficamos. Não é incrível?

Fiz uma relação entre a proposta dos multiletramentos, lá em sua raiz, e os usos de IA que temos hoje, mencionando desde o manifesto de 1996 até textos muito recentes de alguns de seus signatários.

A Furg deu uma notinha. E muita gente postou fotos carinhosas da aula pelo computador. E é assim que a gente vai semeando. Estou grata à professora Gabriela e à sua turma pela receptividade incrível e pela boa gestão do imprevisto.

Sala de aula multiletrante

Sempre digo isso ao editor da Parábola, o Marcos Marcionilo: publicar por essa editora é quando me sinto “vencendo na vida”. Carrego comigo muitas frustrações, mas essa não é uma! Desde a graduação, colecionei livros da Parábola e admirei aqueles autores, as capas, os títulos. Acho realmente um catálogo admirável, cuidadoso e incontornável na área de Letras, sobretudo nos estudos linguísticos.

Nem posso dizer que fui surpreendida… Eu realmente sonhei fazer parte desse elenco. E comecei de fato em 2016, há dez anos, quando publicamos o livro Textos multimodais, ativo no catálogo e bastante citado. É claro que o trabalho começou antes, mas o livro veio à luz naquele ano. E não me dei por satisfeita, claro, porque essas conquistas precisam de manutenção séria. Publicar um livro, para mim, nunca foi uma aventura, um desejo isolado ou um sonho avulso. É parte de um projeto de vida que sustento, e no qual persisto, desde a adolescência.

Como vou manter isso? As exigências de quem chega a um lugar muito almejado também são grandes. Pois aí publicamos o Escrever, hoje, em 2018, e, com o apoio da Capes, o Multimodalidade, textos e tecnologias, em 2021. Nesse ínterim, teve ainda o livro resultante do projeto de extensão Aula aberta, o Tecnologias digitais na escola, que co-organizei com minha querida parceira Pollyanna Vecchio.

E lá se vão 5 anos desde o livro mais recente! Ao menos nessa coleção, porque começamos a produzir uma outra, dedicada à revisão de textos: Questões contemporâneas de edição, preparação e revisão textual, que já conta alguns títulos, entre eles meu Em busca do texto perfeito.

Bom, estão todos no catálogo da Parábola. E agora chega mais um, o Sala de aula multiletrante, que produzi especialmente para a editora e que pretende, mais uma vez, chegar aos/às colegas professores/as. Tem uma história boa e feliz por trás desse título, dessas páginas e dessa capa. Só conto em segredo!

Os lançamentos estão previstos para a Semana do Professor, em outubro, dias 15 (virtual) e dia 17 (presencial). Vamos ver que caminhos esse livro fará. Geralmente eles são bonitos.

A leitura depois do futuro

A conferência proferida no SimLer, evento realizado pela UFPI, não podia ficar assim sem fixação. Preparei o texto para falá-lo, naquela linda ocasião, mas queria ajustá-lo para que encontrasse um lugar entre as revistas científicas da área de Letras. E deu certo. Depois da leitura por pares anônimos, fiz algumas emendas e a publicação está no ar. É só baixar o ensaio no Anuário de Literatura, da UFSC.

Materiais e materialidades

O livro Materia, materiales, materialismo: reflexiones bibliológicas para una crítica literaria, organizado pelos colegas Miguel Ángel Hernández Acosta e Alfredo Lèal, finalmente veio à luz. Esperamos por bastante tempo, mas aí está, e em acesso aberto!

Nele, contribuo com um capítulo intitulado “La edición de mujeres y la edición feminista en Brasil: un ensayo desde las márgenes”, mais um dos resultados no trabalho com o grupo de estudos Mulheres na Edição, que sempre me faz pensar.

A obra pode ser

livremente baixada aqui.

Site da Editora.

Palestras aqui e acolá

O ano demorou a engrenar. Senti angústia diversas vezes. Mais recentemente, fiz uma série de palestras e os livros começaram a sair, um a um. A maioria estava atrasada… E fica parecendo que escrevi tudo ao mesmo tempo, mas não foi. As palestras foram, em sua maioria, remotas. Gosto muito dessa possibilidade. E vamos lá:

Teve palestra na UFOP e mesa-redonda na UFPI, em ocasiões em que pude falar de multiletramentos e multimodalidade. Os vídeos possíveis ficarão aqui embaixo. Antes disso, teve Fórum Nacional de Revisão de Textos e outros eventos país afora.

Teve mesa muito legal na UFRJ e aula magna no curso de Letras da UEMG de Ibirité, esta uma atividade presencial que me permitiu muitos reencontros.

Teve papo de encerramento na Semana Acadêmica de Letras do IFMG, em Congonhas, campus onde visitei o prédio profa. Maria Sílvia Machado Ferreira, homenagem à minha saudosa tia Silvinha. E fora do país também! A palestra de abertura do Colóquio Internacional sobre Bibliodiversidade foi por minha conta, e me tremi toda. 🙂

Tudo isso me permitiu organizar os pensamentos, encontrar públicos diversos e me energizar para o que mais gosto de fazer: estudar e escrever.

Mesa no SLETEM UFPI.
Mesa na UFRJ.
Palestra no DivulgaLetras.
Abertura do Colóquio no México.

Não utilizar em pessoas sensíveis

O último componente do trio saiu! E afesta foi no Espaço Impressões, como devido, num entardecer azul de sábado. Embora eu estivesse sempre temerosa, porque lançamentos têm me frustrado há anos, me senti acolhida e abraçada por dezenas de pessoas que passaram por lá e adquiriram o novo rebento. Também, como aquele projeto gráfico, quem não se seduz?

Impressões de Minas/Divulgação.

Não utilizar em pessoas sensíveis saiu pela Impressões de Minas, casa que mais recebeu minha pequena obra poética. É meu terceiro título por lá, a intervalos de dois ou três anos.

Foto: Amanda Ribeiro.

Mais uma vez, o livro ficou lindo, ainda que alguns errinhos tenham persistido. Faz parte, não é mesmo? Minha performance foi corrigi-los na hora, ao vivo.

Vídeo: Amanda Ribeiro.

Recebi retornos de muitos tipos sobre esse novo poemário. O jornal Estado de Minas publicou uma página inteira sobre ele. No impresso a gente vê melhor. O texto é do professor e crítico Rafael Fava Belúzio, que topou também fazer a mediação do bate-papo no lançamento. Foi uma tarde alentadora.

Foto: Wallison Gontijo.

Carta Capital

A revista Carta Capital de julho publicou uma matéria intitulada “As escolhas delas” sobre algumas editoras que tocam empresas de edição de livros no Brasil. Parte considerável da matéria se baseou nas resultados de trabalhos produzidos pelo grupo Mulheres na Edição, sobretudo no título Como nasce uma editora, de minha autoria.

O número esteve nas bancas na primeira quinzena de julho de 2026. A matéria é de autoria da jornalista Paula Sperb, que falou comigo por telefone semanas antes da publicação.

A notícia me pegou pelo Instagram, quando a editora Relicário postou sobre a publicação. Claro, Maíra Nassif é uma das editoras retratadas.

O grupo Mulheres na Edição segue se encontrando mensalmente e estudando o tema da edição em sua relação com os feminismos e o contexto latino-americano. Já publicamos vários livros e artigos e não pretendemos parar. Fica a dica do livro Prezada editora, pela coleção Pensar Edição, da Moinhos, além das produções da Entretantas, já extinta.

A revista em pdf está aqui:

Vaga memória

Finalmente decidi – e consegui – me juntar ao elenco da Biblioteca Madrinha Lua, coleção da editora Peirópolis da qual sou curadora há vários anos. O Vaga memória é o décimo terceiro título e, provavelmente, não o último dessa sequência de obras de autoria feminina contemporânea brasileira. Para adquiri-lo, é só clicar.

Seguimos nesse azul com projeto da designer Grabriela Araújo e direção geral da admirada Renata Farhat Borges, à frente da casa há algumas décadas e fazendo um trabalho lindo e consciencioso. Como aprendo lá!

O livro é dividido em três partes e reúne poemas escritos exclusivamente para a coleção. Demorei mas vim. Renata sempre cobrou.

Aqui o tom é afetuoso, um misto de ficção e memória, claro. Não se pode acreditar em tudo, nem que eu mesma tenha sido quem viveu as situações, mas muito do que sinto, sou e penso está ali. O filho é real e não é; os pais igualmente. Importante é tratar esse poemário como uma oportunidade de pensar a vida, no que ela tem de morte e ausência também.

O prefácio é da poeta Mariana Ianelli, o posfácio, da Renata, e fico aqui pensando aonde esse livro vai me levar. Ou me deixar. É meu décimo segundo poemário, desde 1997, quando comecei a publicar.

O lançamento 1 foi em Brasília, junto com o Instruções para arquitetos (Moinhos). A notícia trata disso, ó. O segundo lançamento será em São Paulo, terra da editora, na Livraria da Tarde, onde faremos uma tarde feliz. BH ainda não está no horizonte, mas virá.

Os dois primeiros elogios ao livro saíram em espaços restritos: uma notinha de WhatsApp pelo editor do jornal Rascunho, Rogério Pereira; e um texto cheio de afeto no Facebook do querido Júlio Daio Borges, editor do Digestivo Cultural. É no Instagram que as pessoas se manifestam mais, postando fotos, mostrando páginas, lendo de viva voz alguns poemas selecionados. Vaga memória alcançou bastante gente dessa maneira, sobretudo pelo perfil da Isabella Albuquerque – Os melhores livros do mundo.

Instruções para arquitetos

Poemário novo na área. Foi entregue à editora em resposta às provocações do editor, meu amigo Nathan Matos, que sempre dizia: “Você só não publica poesia comigo!”, naquele sotaque cearense maravilhoso dele. Pois bem. Um dia, terminei uma sequência de poemas escritos em diálogo com Flávia de Queiroz, uma poeta carioca que vive em Belo Horizonte, e mandei para a Moinhos.

Eis aí um conjunto de poemas-conversa. O tempo todo, estou em diálogo com Flávia, tratando da casa, da vida, das pessoas, das ausências, das mudanças. Sim, as mulheres sempre foram “acusadas” de não ter assunto para a literatura. São inúmeras cartas e declarações de escritores mencionando uma escrita “feminina” sinônima de doméstica, intimista, íntima, confessional talvez. E isso não é matéria de poesia, de literatura. E será? E será só isso?

Sem medo, aí estão poemas sobre a casa, sua arquitetura visível e, mais, a invisível, sua habitação, seus espaços e silêncios, as questões que o viver e o morar colocam, se quisermos. Flávia conta das paredes, dos quartos, eu conto de como isso existe e não existe, se colore ou não, diz algo, um discurso sobre a vida de quem habita ou desiste. É mais do que olhar o espaço íntimo sem política.

Mas não vale o que eu mesma falar sobre meu livro. Ou vale. São coisas que pensei ao escrever e depois ao publicar. O editor perguntou sobre o título: por quê? Eu soube explicar, embora tenha demorado a definir por ele. Difícil intitular. E este livro precisava ser mais “frio”, assim como outros que ando escrevendo. Provavelmente para um público minúsculo, embora também importante.

Instruções para arquitetos teve seu primeiro lançamento em Brasília, na livraria Circulares, que promoveu também um curso breve sobre edição literária. Foi um dia bonito, de festa, de reencontros. Tive a oportunidade de falar do livro, ler poemas, abraçar gente querida que encontro pouco, sob a mediação de duas colegas queridas e generosas: Thainá Carvalho e Ludimila Moreira. Sem falar na hospitalidade da Ana Raja.

A matéria do Correio Braziliense deu notícia da minha estada em Brasília, embora tenha levado a sério demais o que a poeta e professora Alícia Duarte Penna diz na orelha: nunca existiu um quarto de costuras na casa da minha avó. Isso é Alícia lendo, ficcionalizando, imaginando… e escrevendo um belo texto de orelha para outra poeta. Curioso isso, não? Efeitos da leitura literária. Poetas fingidoras exitosas.

Para adquirir o IpA, é só ir ao site da Moinhos. Entregas em todo o Brasil. Sei que já está em livrarias aqui e acolá, a tiragem é pequena.

Ano atravancado

Que ano atravancado, minha gente! Janeiro, fevereiro e março costumam mesmo me dar essa impressão… Mas depois disso, tudo ainda represado! Não têm essa sensação? Nada acontece direito… E provavelmente ficará para o segundo semestre, junto com a eleição! Um tumulto só, uma confusão entre verdade e mentira, um cheiro de violência o tempo todo no ar. Ontem almocei assistindo ao jornal e, nossa!, quando me levantei para lavar a louça, pensei: “Que massacre!”. A gente se levanta cansada, mais do que já é, só de receber a carga de tanto acidente, corrupção, feminicídio, coisas estapafúrdias e tal. E se alguém pensa que é só no Brasil… Não. Claro, não que isso console alguém, mas é que a bizarrice está espalhada pelo planeta. Por e-mail, recebo notícias esquisitas de toda parte. Nada alentador. Uma canseira só de espiar quinze minutos pela janela. Não à toa vai dando medo de sair, vontade de ir ficando em casa, acomodando-se ao trabalho remoto. Ano trancado, engastalhado… As coisas não se mexem. A coordenação da pós-graduação avisou que o dinheiro do programa não está disponível até hoje! Estamos no meio de junho! Como trabalhar assim? E a Capes age como se tudo estivesse financiado e normal. É uma coisa esquizofrênica mesmo, e desanimadora. E nossa revista – suada – fora do ar há seis meses, sem explicação nem sequer educadinha! Mas vamos lá. Há de fazer sentido.

Page 1 of 101

Ana Elisa • 2020