Mês: janeiro 2026

Mulheres na Edição – O que lemos?

O grupo de estudos e pesquisas Mulheres na Edição iniciou suas atividades presencialmente, nas salas de aula do campus Nova Suíça do CEFET-MG, no segundo semestre de 2018, depois da aprovação do projeto de pesquisa sobre mulheres que editam em Minas Gerais (e no Brasil), financiado pela Fapemig por vários anos. Desde aquele momento, começamos a ler ao menos um texto por mês sobre temas que tocam diretamente as questões de gênero e edição, passando pela literatura e pela escrita, pela interseccionalidade e pelos feminismos. Registramos a iniciativa na plataforma de GPs do CNPq e cadastramos as pessoas interessadas. A inscrição para receber os links dos encontros e participar das conversas é feita por e-mail (anadigital@gmail.com), de maneira simplificada. O grupo teve crescimento exponencial durante a pandemia da covid-19 e hoje conta com mais de 400 pessoas cadastradas.

O MulhEd foi coordenado pelas professoras Ana Elisa Ribeiro (líder), Renata Moreira e Maria do Rosário Alves Pereira até meados de 2025, quando as duas últimas decidiram partir para novas empreitadas. No lugar delas, entrou Sandra Dias Lucindo, pesquisadora e servidora do CEFET-MG.

De tempos em tempos, alguém pergunta pelos textos anteriormente lidos no grupo. Às vezes, pessoas novas indicam obras que já foram abordadas, mas que não estão numa memória explícita para quem está e para quem chega. É o que vamos corrigir aqui.

Na lista a seguir, estão quase todos os textos lidos pelo grupo, não exatamente na ordem de leitura, desde os encontros sistemáticos de 2019, a maioria com links de acesso aberto. Quando não é isso, indicamos a compra, dando preferência às editoras, se possível. Em alguns meses, fizemos eventos com convidadas e convidados, e nem sempre o texto está disponível. Esses eventos podem ter ficado gravados no YouTube do MulhEd. Faremos o máximo para manter esta lista atualizada. Boa navegação!

2026

Disidencia, resistencia y reposicionamiento: la actividad editorial entre dictadura y democracia. Mujeres editoras, de Gustavo Bombini, no Cuaderno 107 do Centro de Estudios en Diseño y Comunicación da Universidad de Palermo, Argentina.

Design no patriarcado, de Cheryl Buckley com tradução de Mariana Delfini, pelas editoras Bikini Books e Clube do Livro do Design.

2025

Desigualdades de gênero no subcampo científico da comunicação: o teto de vidro no quintal, de Milena Freire de Oliveira-Cruz e Laura Wottrich

Editoras Pallas, Corrupio e Mazza: pioneirismo e publicação negra no Brasil, de Ana Elisa Ribeiro e Maria do Rosário Alves Pereira

Teoría feminista y práctica editorial: una cuestión posthumana, de Gabriela Méndez Cota

La feminización en las bibliotecas estadounidenses: investigación bibliográfica, de Esther Carreño Corchete

O Brasil que lê: bibliotecas comunitárias e resistência cultural na formação de leitores, de Cida Fernandez, Elisa Machado e Ester Rosa

Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo, de Gloria Anzaldúa

Entre o livro e o leitor: o editor e a forma das ideias, de Adriana Thomazotti Claro

Perfil das protagonistas na literatura jovem (2010-2019): uma análise de narrativas das editoras Galera e Verus, de Laura Conrado Dias de Oliveira

Julia Codorniu (1854-1906) o cuando la literata se hace editora, de Sylvie Turc-Zinopoulos

6ª edição Retratos da Leitura no Brasil, de Instituto Pró-Livro (coord. Zoara Failla)

2024

O protagonismo de três mulheres na edição universitária brasileira, de Gabriella Noronha Pinto e Sérgio Antônio Silva

A língua serpente em Mar Paraguaio, de Wilson Bueno, de Jorgelina Tallei e Ana Elisa Ribeiro

Harriet Martineau – Como observar: morais e costumes – “Casamento e mulher” e “Crianças” e Harriet Martineau – Sociedade na América – “A não existência política das mulheres”, de Harriet Martineau

Literatura infanto-juvenil: para que fazer?, de Ana Maria Clark Peres

As poetas africanas de língua portuguesa, de Paulo Geovane e Silva

Niños insoportables: infancias, literatura y prácticas al margen, de Angela Patricia Melo Arévalo

La literatura infantil como un sitio de violencia lenta, de Macarena García González e Justyna Deszcz Tryhubczac

Victoria Ocampo, Concentrado de tensões, de Karina de Castilhos Lucena

Elas editam – História editorial e arquivos vivos na Colômbia, de Paula Andrea Marín Colorado

Catapoesia – Confluências entre a metodologia da editora cartonera e os princípios da tecnologia social em propostas coletivas de edição, de Sol Barreto

Femedição – Por uma práxis editorial feminista ibero-americana, de Ana Gallego Cuiñas

Investigación de la participación de la mujeres en sector editorial latinoamericano, CERLALC Relatório

2023

Plataformização da indústria cultural: produções contingentes no Amazon Kindle Unlimited, de Luana Teixeira de Souza Cruz e Pollyanna de Mattos Moura Vecchio

Ecofeminismo, de Maria Mies e Vandana Shiva

Apuntes para pensar el campo editorial en clave feminista. El caso argentino contemporáneo, de Daniela Szpilbarg e Ivana Mihal

Mulheres-editoras-independentes e as edições de si, de Letícia Santana Gomes

A representação da igualdade de gênero nas capas de livros infantis do clube de assinatura Minha Pequena Feminista sob o foco da GDV, de Jaíne Reis Martins e Flaviane Carvalho

La cuestión del género: propuestas olvidadas y desafíos críticos, de Sylvia Molloy

Romper tipos: mujeres editoras, Universidad Veracruzana

El papel de los agentes literarios en las dinámicas del campo, el caso de Brasil en la actualidad, de Carmen Villarino Pardo

Editora Rosa dos Tempos e Editoras Mulheres: pioneirismo nas questões de gênero no mercado editorial brasileiro, de Maria do Rosário Alves Pereira e Luanna Luchesi

A obrigação de ser genial, de Betina González (e matéria na Piauí)

O lugar das palavras, de Vanessa Ferrari

2022

Uma editora só para si: feminismo e edição independente no Brasil contemporâneo, de Luciana Aragão Soares (cap. 2 e 3)

A história oculta da fofoca mulheres, caça às bruxas e resistência ao patriarcado, de Silvia Federici

Reflexiones sobre la noción de catálogo y colección editorial. Dispositivos y estrategias para la producción de sentidos en el mundo del libro, de María Eugenia Costa e Marina Garone Gravier

Um feminismo decolonial, de Françoise Vergès

O que não é um autor. Fundamentos conceituais e estratégias críticas para desautorizar as escritoras, de Aina Pérez Fontdevila

Escritora, editora, lectora. La condición triangular de las letras afrohispanas a través de la práctica editorial de Remei Sipi Mayo, de Mayca de Castro Rodrígues

“Antes era só ler, hoje em dia é ler e comentar”: leituras compartilhadas pela internet nos clubes Leia Mulheres, de Jean Silveira Rossi

Cânone e liberdade, de Susana Scramim (Indisponível na web)

Mulheres nos quadrinhos: invisibilidade e resistência, de Carolina Ito Messias e Giulia Crippa

2021

Problemas de gênero, de Judith Butler (cap. 1)

O mito da beleza, de Naomi Wolf (cap. 1)

Leituras feministas no Brasil e na Argentina: circulações e apropriações, de Joana Vieira Borges

Ausências e estereótipos no romance brasileiro das últimas décadas: alterações e continuidades, de Regina Dalcastagnè

Aprendendo com a outsider within*: a significação sociológica do pensamento feminista negro, de Patricia Hill Collins

Gênero e colonialidade: em busca de chaves de leitura e de um vocabulário estratégico descolonial, de Rita Laura Segato

Gênero, história das mulheres e história social, de Louise A. Tilly

Prezada editora, Mulheres no mercado editorial brasileiro, de Ana Elisa Ribeiro, Renata Moreira e Maria do Rosário Alves Pereira

2020

Armas cargadas de futuro. Hacia una historia feminista de la edición en Argentina, de Daniela Szpilbarg

Intelectuais negras, de bell hooks

Teorias feministas da política, empiria e normatividade, de Flávia Biroli

Esther Tusquets: la práctica editorial como praxis feminista, de Marta Simó-Comas

O direito de ler e escrever, de Sílvia Castrillón

A categoria político-cultural de amefricanidade, de Lélia Gonzalez

Epistemologia feminista, gênero e história, de Margareth Rago (capítulo do livro de Pedro, Joana; Grossi, Miriam (orgs.) Masculino, feminino, plural. Florianópolis: Editora Mulheres, 1998, indisponível na web)

Por uma história editorial da poesia negro/afro brasileira, de Fabiane Cristine Rodrigues

Notas sobre o mundo social do livro: a construção do editor e da edição, de Nuno Medeiros

Por uma crítica feminista, de Eurídice Figueiredo

Rumo a um feminismo descolonial, de María Lugones

Um corpo negro, de Lubi Prates

Mulheres em movimento, de Sueli Carneiro

2019

Feminismo e literatura no Brasil, de Constância Lima Duarte

Como ter sucesso nas artes sem ser um homem? Manual para artistas mulheres do século XIX, de Séverine Sofio

O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro

Um teto todo seu, de Virginia Woolf (Há outras edições brasileiras)

2018

Atividades iniciais do grupo presenciais

Ler, ler mais

Por mais esquisito que isso pareça, ser professora não incrementa minhas possibilidades de ler. Menos ainda as de ler livros e textos não relacionados às atividades laborais diárias. Sempre achei isso um contrassenso, embora seja também meio óbvio. Não me conformo, no entanto.

Escolhi fazer Letras porque pensei que isso talvez me garantisse uma vaga entre as pessoas que leem, leem sempre, leem muito. Na época, não associei diretamente a escolha acadêmica e a vida profissional real de uma professora. O problema é que a leitura literária eletiva, por exemplo, foi sendo expulsa da minha vida. E isso sempre me angustiou. Não separei o mundo entre linguistas e não-linguistas, e ler literatura sempre fez parte do meu enquadramento como pessoa de Letras, mesmo eu sendo… linguista.

Em 2019, lembro que me revoltei com alguma dificuldade imposta, não conseguia terminar um livro, algo assim, e decidi que leria, sim, leria literatura contemporânea (ainda mais eu, escritora…), desobedecendo tudo e todos, quisessem ou não. Ninguém tinha nada com isso. Meti lá os livros em alguns cantos da casa e me prometi ler, ler sempre. Pegar uma fila (nem sempre fixa) e ler. Mesmo que tarefas entrassem voando pela janela, chefes dessem ordens aleatórias antileitura, alunos me prensassem contra a parede, filho me demandasse além da conta, maridos agissem pior do que filhos, etc. E li, me pus a ler, com essa sensação de que preciso me proteger, sempre.

Uma estratégia que uso é esta: acordo, tomo meu café, volto para cama e leio por alguns minutos. Se tiver sorte, algumas horas. Como faço isso? Não consulto nada no celular. Não pego no celular antes de meio-dia. Finjo que não existo. Se abrir um aplicativo qualquer, a leitura se esvai. Não posso. O negócio é não aparecer socialmente. O celular é uma máquina de massacrar gente que, além de demandar em excesso, todo o tempo, porque abre um canal direto com nosso tempo de vida, ainda impede que leiamos um livro por alguns minutos inteiros, sem interrupções. Pois não chego nem perto do telefone, e assim me mantenho na missão que me dei. Funciona.

Fongwei Liu – detalhe

Acho muito estranho que uma professora (e de Português!) não consiga estar a par do que acontece na literatura e nas questões técnicas atuais. Tanta profissão que mantém o livro e a leitura à distância… E eu não as escolhi. Elegi uma que pensei ser uma espécie de oásis. Me enganei. Se bobear, ficamos sempre naqueles mesmos dez clássicos da época em que estudamos. Para ler, ainda que sejamos docentes!, é preciso desobedecer.

Este ano celebro 7 anos dessa decisão, que me trouxe muitos frutos. Salve a leitura!

IA e retextualização

Ainda falta muito para entendermos a que veio mesmo a IA gerativa. O assunto é tão relevante, principalmente por seus efeitos, que vimos ofertando disciplinas na graduação e na pós-graduação para estudar e debater o tema, em especial quando ele toca a educação básica, e mesmo o ensino superior. Não é possível fugir do assunto.

No esforço de compreender os impactos da IAG na produção escrita de crianças e jovens, Lucas Mariano, Juliana Paiva Soares e eu publicamos um artigo na revista Gláuks. Nele, analisamos produções reais de estudantes de uma escola pública mineira. O convite para esta coautoria partiu dos dois doutorandos do CEFET-MG, docentes dedicados ao ensino fundamental II. Convidamos à leitura.

Livros para a infância

Fabíola Farias é uma das mais importantes especialistas em literaturas e livros para infâncias que eu já vi. É impressionante como ela conhece desse riscado. Fomos colegas de faculdade, décadas atrás, e me lembro de que ela já se destacava. Anos depois, tive a alegria de fazer parte de suas bancas de mestrado e doutorado na UFMG. Em 2024, ela fez um estágio pós-doutoral no CEFET-MG, sob minha supervisão, mas daquele jeito: nem precisava. Tenho certeza de que aprendi muito mais do que ela nessa troca.

Além de ser uma estudiosa, Fabíola é uma fazedeira. É dessas pessoas que realizam muitas coisas, e de um jeito sempre muito distribuído e coletivo. É produtora cultural, curadora, gestora e o que mais vier. Entre suas realizações, inclusive do pós-doc, está o livro sobre crianças e livros em Belo Horizonte, que põe no lugar, com justiça, a importância da nossa cidade na cena nacional da literatura infantil e juvenil.

Outro produto legal das fazeções da Fabíola foi me convidar para organizar com ela o Livros para a infância, um livro concebido por nós e escrito por uma turma de especialistas muito bons no assunto. Aliás, a obra já está aprovada no PNLD para a formação de professores da educação infantil. Não damos ponto sem nó.

Livros para a infância trata de muitos aspectos das literaturas e dos livros para esse público. O segmento é um espaço de disputa feroz. Vale muito a leitura e o estudo dessa referência que a editora Moinhos põe na roda, aliás, por meio da nossa coleção Pensar Edição.

Revista do GEL e tecnodiversidade

Em dezembro, tive a boa notícia de um ensaio publicado na Revista do GEL, o Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo. O trabalho é desdobramento de uma mesa-redonda da qual participei em 2024, quando o evento do GEL foi na Unicamp. O convite me honrou muito, na época, quando dividi o espaço com a querida colega Márcia Mendonça, mediadas pela Jacqueline Barbosa, ambas da Unicamp. Dali, foi importante escrever e submeter à revista, que preparava uma espécie de número especial derivado do encontro.

O texto publicado é um ensaio, isto é, fiz especulações mais livres, com base na leitura de alguns autores e no que argumentei sobre a relação entre multiletramentos, tecnodiversidade e o ensino de língua materna. Aliás, toco na noção de diversidade para discutir questões que estão em foco hoje. Tudo com aquele toque de “conversa” que gosto de imprimir aos textos.

Embora esta publicação saia em uma revista muito boa (o link dela inteira está aqui), é difícil que um artigo/ensaio seja visto e lido, no meio de tanta oferta, não é mesmo? Mas vamos lá continuar dizendo o que acreditamos que vale a pena ser dito. Aqui o link para o artigo direto.

Caladinha

Como algumas pessoas sabem, minha conta do Instagram ficou restrita por mais de duas semanas, do Natal de 2025 ao início de janeiro de 2026. Do mesmo jeito que foi, voltou. E fiquei sem entender nada. Não estava sozinha. Soube de várias pessoas – todas escritoras e/ou professoras – na mesma situação misteriosa. Alguns chamaram de shadowban, quando a gente é banida na sombra, sem lealdade ou explicação. De fato, de repente, fui impedida de postar, tanto no feed quanto nos stories, e também não conseguia seguir ninguém. No conversê revoltado e perplexo entre os excluídos, descobrimos algumas brechas curiosas: era possível postar stories via Facebook; e dava para aceitar collab de alguém no feed. Fiz isso uma ou outra vez. Quando já ia criar uma conta nova para colaborar comigo mesma, eis que o Insta volta. Poxa… Sem explicações. Um colega disse que o dele voltou quando ele excluiu o link do Linktree. Fiz o mesmo e a coincidência também rolou. Coincidência? Espalhei isso para algumas pessoas… Funcionou. Vai saber… O negócio é que deixei de compartilhar textos, trabalhos, eventos, etc. Minhas visualizações mensais foram a 1/4 do que eram. E para recuperar? Meu uso do Instagram é 80% profissional. Só de vez em quando posto algo pessoal, até porque ninguém é de ferro e o pessoal também gosta de uma fofoca. Mas geralmente divulgo coisas do mundo do trabalho para quem está ligado nas questões de leitura, escrita, edição, docência. Foi osso ficar sem esse canal. Fica aqui o link de um dos textos que não consegui divulgar: minha crônica de dezembro no Rascunho.

Ana Elisa • 2020