Por mais esquisito que isso pareça, ser professora não incrementa minhas possibilidades de ler. Menos ainda as de ler livros e textos não relacionados às atividades laborais diárias. Sempre achei isso um contrassenso, embora seja também meio óbvio. Não me conformo, no entanto.

Escolhi fazer Letras porque pensei que isso talvez me garantisse uma vaga entre as pessoas que leem, leem sempre, leem muito. Na época, não associei diretamente a escolha acadêmica e a vida profissional real de uma professora. O problema é que a leitura literária eletiva, por exemplo, foi sendo expulsa da minha vida. E isso sempre me angustiou. Não separei o mundo entre linguistas e não-linguistas, e ler literatura sempre fez parte do meu enquadramento como pessoa de Letras, mesmo eu sendo… linguista.
Em 2019, lembro que me revoltei com alguma dificuldade imposta, não conseguia terminar um livro, algo assim, e decidi que leria, sim, leria literatura contemporânea (ainda mais eu, escritora…), desobedecendo tudo e todos, quisessem ou não. Ninguém tinha nada com isso. Meti lá os livros em alguns cantos da casa e me prometi ler, ler sempre. Pegar uma fila (nem sempre fixa) e ler. Mesmo que tarefas entrassem voando pela janela, chefes dessem ordens aleatórias antileitura, alunos me prensassem contra a parede, filho me demandasse além da conta, maridos agissem pior do que filhos, etc. E li, me pus a ler, com essa sensação de que preciso me proteger, sempre.
Uma estratégia que uso é esta: acordo, tomo meu café, volto para cama e leio por alguns minutos. Se tiver sorte, algumas horas. Como faço isso? Não consulto nada no celular. Não pego no celular antes de meio-dia. Finjo que não existo. Se abrir um aplicativo qualquer, a leitura se esvai. Não posso. O negócio é não aparecer socialmente. O celular é uma máquina de massacrar gente que, além de demandar em excesso, todo o tempo, porque abre um canal direto com nosso tempo de vida, ainda impede que leiamos um livro por alguns minutos inteiros, sem interrupções. Pois não chego nem perto do telefone, e assim me mantenho na missão que me dei. Funciona.

Acho muito estranho que uma professora (e de Português!) não consiga estar a par do que acontece na literatura e nas questões técnicas atuais. Tanta profissão que mantém o livro e a leitura à distância… E eu não as escolhi. Elegi uma que pensei ser uma espécie de oásis. Me enganei. Se bobear, ficamos sempre naqueles mesmos dez clássicos da época em que estudamos. Para ler, ainda que sejamos docentes!, é preciso desobedecer.
Este ano celebro 7 anos dessa decisão, que me trouxe muitos frutos. Salve a leitura!