O Dia da Mulher, hoje, tem uma carinha meio fofa, mas serve para destacar um momento de luta por uma sociedade equânime (que estamos ainda longe de alcançar). Na véspera do dia 8 de março, infelizmente, assisti a vídeos terríveis de meninos que odeiam meninas, soube de más notícias sobre estrupros coletivos, me informei sobre dados desiguais quanto a profissões e salários. Não tem graça. Eu até me esquivo de receber os “parabéns”.

Muitas postagens foram feitas, ao contrário, para celebrar personalidades femininas revolucionárias e/ou notáveis. Geralmente, mulheres famosas, reconhecidas ou que foram apagadas por algum tempo e vêm à tona por seus feitos. Maravilha. Eu, no entanto, conheci algumas mulheres sensacionais bem de perto, e não sei se elas chegarão a virar estátuas ou nomes de rua.

Na minha vida, algumas mulheres foram e são fundamentais. Mas que coisa óbvia, Ana! A começar pela sua mãe. É… Parece óbvio, mas não é. Tá cheio de “filho da mãe” por aí. Mas além da minha mãe, que me trouxe ao mundo e que, mais do que isso, cuidou e cuida de mim, outras mulheres me estenderam a mão pela vida afora, de maneira muito efetiva, embora nem sempre derramada e explicitamente afetuosa.

Minha mãe até hoje faz umas rondas de ligações telefônicas para saber onde está cada filho (somos quatro) e se cada um está bem. Se eu gripar, ela quer saber da evolução e meu pai vem à minha casa me trazer remédio. O casal faz isso há mais de 50 anos. Que sorte! Tenho três irmãos, quer dizer, dois irmãos e uma irmã. Na adolescência não foi tão fácil, mas na vida adulta, ela e eu nos unimos em torno do cuidado de nossos pais e de nossos filhos. Ela é madrinha do meu, eu, do dela. Mais do que um título inócuo, isso fica consolidado na maneira como nos preocupamos com nosso dia a dia e como administramos tudo o que precisa ser resolvido. Isso inclui o fato de eu ser praticamente mãe solo há muitos anos e ter contado com uma rede de apoio que tinha uma maioria de mulheres.

Na dimensão profissional, não faltaram mulheres. É claro que isso também tem a ver com a área que escolhi: as Letras, desde sempre muito feminizada e desvalorizada. Mesmo assim, e por isso mesmo, algumas mulheres bem-sucedidas e que eu admirava boquiaberta foram tão importantes em minha trajetória. Desde a alfabetizadora (Fátima) até minha orientadora de doutorado, passando pela minha avó e pela minha tia mais jovem, todas fomentaram e/ou incentivaram o meu desenvolvimento. Minha avó e minha tia maternas por meio do incentivo constante à minha formação leitora; a professora Sônia Queiroz, na UFMG, por meio de projetos de extensão e pesquisa, além das minhas primeiras experiências de trabalho; a Sonia Junqueira, nas editoras, ensinando a editar com calma e firmeza (até hoje); a Vera Menezes, que oferecia disciplinas on-line na UFMG lá em 2001 (!), o que permitiu que uma aluna trabalhadora conseguisse cumprir créditos e se tornar pesquisadora e professora; a Carla Coscarelli, na UFMG, por meio das disciplinas ofertadas, das provocações que geraram pesquisas, da parceria como coautora, das orientações e de uma amizade que atravessou mais da metade da minha vida. No CEFET-MG, a professora Ana Maria Nápoles me recebeu com alegria e me estimulou a executar todas as ideias que pareciam malucas; Renata e Rosário, minhas colegas, tocaram comigo um grupo de estudos que já conta 8 anos!; Renata Amaral, do CP UFMG, é uma grande parceira de “mexidas” e “invenções de moda”; sem contar algumas alunas que me desenvolvem sempre como orientadora e professora. Isso para citar um pouquinho de gente. Há muito mais, claro.

Carla e eu posando para
a produção de um livro.
Rosário e Renata num encontro ligado ao Mulheres na Edição

Se não fosse essa mulherada, talvez eu não tivesse a chance de agarrar algumas oportunidades importantes. Foram elas que abriram espaços de formação e trabalho por onde eu passei. Efetivamente. É claro que houve homens nesse caminho, mas não nessas posições. Obrigada a todas. E não pensem que só digo isso hoje, nesta data; eu vivo reiterando a importância de cada uma em minha vida.