Fabíola Farias é uma das mais importantes especialistas em literaturas e livros para infâncias que eu já vi. É impressionante como ela conhece desse riscado. Fomos colegas de faculdade, décadas atrás, e me lembro de que ela já se destacava. Anos depois, tive a alegria de fazer parte de suas bancas de mestrado e doutorado na UFMG. Em 2024, ela fez um estágio pós-doutoral no CEFET-MG, sob minha supervisão, mas daquele jeito: nem precisava. Tenho certeza de que aprendi muito mais do que ela nessa troca.
Além de ser uma estudiosa, Fabíola é uma fazedeira. É dessas pessoas que realizam muitas coisas, e de um jeito sempre muito distribuído e coletivo. É produtora cultural, curadora, gestora e o que mais vier. Entre suas realizações, inclusive do pós-doc, está o livro sobre crianças e livros em Belo Horizonte, que põe no lugar, com justiça, a importância da nossa cidade na cena nacional da literatura infantil e juvenil.
Outro produto legal das fazeções da Fabíola foi me convidar para organizar com ela o Livros para a infância, um livro concebido por nós e escrito por uma turma de especialistas muito bons no assunto. Aliás, a obra já está aprovada no PNLD para a formação de professores da educação infantil. Não damos ponto sem nó.
Livros para a infância trata de muitos aspectos das literaturas e dos livros para esse público. O segmento é um espaço de disputa feroz. Vale muito a leitura e o estudo dessa referência que a editora Moinhos põe na roda, aliás, por meio da nossa coleção Pensar Edição.
Novembro tem sido e continuará sendo um mês de muitas atividades. Final de ano é sempre meio caótico, não? Como lidar? Lançamentos de livros (os últimos do ano, meu e de colegas), mediações, finalizações e alguns eventos já no apagar das luzes. Tem SimLer e acabou de ter participação no Fórum das Letras de Ouro Preto, ao qual eu não ia fazia tempo. Como gosto dessa cidade!
Lançamentos de livros na Outras Palavras Livraria, na manhã de sábado, 8 de novembro, às 10h30, com o editor Rauer e a escritora Luísa Coelho.
Dois lançamentos de colegas se anunciam: o da Gabriela Romeu com a Flávia Bomfim, pela Peirópolis, em São Paulo, e o do Leonardo Piana, pela Autêntica Contemporânea, em BH. Todos presenciais e em belas livrarias.
O finalzinho do mês será de conferência no SimLer e ufa! Tudo feito com amor <3.
Das atividades de outubro, certamente a visita das professoras Jenny Guerra (México) e Camila Escudero (Equador) e a Molla (dentro do FliBH) foram as mais intensas. Tivemos visita de editores, professores e muita conversa boa. Como diz meu amigo Nathan Matos, editor da Moinhos: isso reenergiza.
CEFET-MG
Inhotim
No início do mês, Jenny e Camila estiveram no CEFET-MG para palestras e aulas, tanto na graduação em Letras, quanto na pós-graduação em Estudos de Linguagens. Não faltaram também atividades culturais, visitas a museus e centros de gastronomia mineira. Essa visita certamente fortaleceu nossos laços de colaboração profissional e de amizade. Importante salientar a conexão entre CEFET-MG e Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) por meio do Seminário Indústria da Informação Digital (SIID).
Mesa na Molla/FliBH
Com Luciana Tanure
No final do mês, realizamos a Mostra do Livro Latino-americano (MOLLA) dentro das atividades do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FliBH), parceria muito produtiva. Fiz parte da equipe de curadores da MOLLA, encabeçada pela Luciana Tanure. Oferecemos mesas, palestras, contações de histórias, feira de livro e muito mais. Cansa? Cansa. Mas também gratifica muito. Foi a culminância de um trabalho de muitos meses. A programação pode ser vista aqui.
No meio disso, lancei o livroEscrever e ensinar a escrever (Editora da Unimontes), que começa a circular por aí e me dá alegria. O pdf em acesso aberto fica aqui, e a versão impressa chegará às mãos de algumas centenas de pessoas. Torço para que gostem do trabalho.
Faz um tempo, eu soube que a Unimontes e sua editora lançariam um edital para livros de divulgação científica, isto é, obras escritas numa linguagem acessível e para públicos mais amplos do que meus pares acadêmicos. Mais ou menos isso.
Juntei um material que andava disperso por aí e editei esse original. Eram textos que publiquei no Blog da Parábola e na Revista Ponte, mas que tinham circulação mais restrita ou esquecida. Ajeitei, organizei, revisei, ampliei… Escrevi mais um texto sobre a tal da IA e o que ela tem causado no ensino de língua materna… Se é que tem… E fui lá concorrer.
O resultado foi a aprovação da proposta. Isso me deixou muito feliz. Tenho enorme carinho pela Unimontes, e a reunião desse material me deixa muito animada e feliz. Melhor ainda: por ter apoio institucional, o livro será distribuído gratuitamente em escolas públicas (uma tiragem inicial) e depois será liberado como pdf de acesso aberto no site da editora. Isso faz qualquer pesquisadora se sentir muito gratificada.
Olha que capa linda!
Sou professora de Redação no ensino médio. Antes disso, sou escritora e sempre fui uma apaixonada pela escrita e pela língua. Formei-me linguista (e não por ter menos amor à literatura) e atuo também em outros níveis de ensino – graduação e pós – justamente orientando pessoas que escrevem. Se não dou aulas disso (às vezes, sim, como as oficinas de criação no bacharelado em Letras do CEFET-MG), a missão de ajudar que pessoas desenvolvam suas escritas atravessa toda a minha atividade profissional.
O livro que lançamos agora é, então, resultado de estudo e empiria. Estou lá, com as duas mãos na massa e o coração ativo, nas salas de aula dos três níveis de ensino. Vamos comigo?
O lançamento de Escrever e ensinar a escrever, um antimanual para docentes, é dia 18 de setembro, pelo canal do YouTube da Editora da Unimontes. O livro tem paratextos de Carla Coscarelli (UFMG) e Marcos Marcionilo (Parábola Editorial). Um luxo só, e ainda ser editada pela Maria Clara Maciel e equipe. Sigamos! Tomara que as pessoas leitoras gostem!
Desde 2018, o grupo de estudos e pesquisas Mulheres na Edição contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, a Fapemig, como financiadora única do nosso trabalho, em especial nosso projeto de pesquisa que mapeia mulheres que editam em Minas Gerais (e além). Somos um grupo de estudos que começou mais ou menos com a proposta de um clube de leitura: escolheríamos um texto por mês para ler. Os encontros seriam mensais e teríamos condições de comentar nossas leituras e dialogar sobre elas.
Bem, a despeito de toda a forçação para que paremos de estudar e de fazer o que realmente interessa, o fato é que o grupo resiste bravamente e está em atividade até hoje. Ou seja, são aproximadamente sete anos ininterruptos de leituras, mais de 60 textos/encontros e vários aniversários comemorados. As coordenadoras somos eu e as queridas colegas Rosário Pereira e Renata Moreira, ambas do CEFET-MG. É um grupo dedicado e propositivo, que fez e publicou muita coisa nesses anos, além de reunir muita gente (mais de 400 inscritos/as) em torno do tema das mulheres no mercado editorial, de forma pioneira no país. Somos bastante reconhecidas dentro e fora do Brasil e fazemos parte de redes por aí que estão atentas ao nosso trabalho.
Ao finalizar nosso projeto junto à Fapemig, passamos aquele aperto da prestação de contas (porque é burocrático mesmo) e ainda tive de fazer um pitch, que é um vídeo curto que resume bem o que aconteceu no projeto.
Poxa, como foi difícil! O primeiro pitch a gente nunca esquece! Lá vai ele, que não me deixa exatamente orgulhosa pelo visual, mas sim pelo trabalho importante que nosso grupo fez ao longo dos anos.
Há vários anos que a turma do Clube de Editores do Rio Grande do Sul vem ensaiando me chamar para participar do seminário que eles promovem há vários anos. Confesso minha afinidade com escritores e escritoras gaúchos. O povo é bom mesmo. Para além da turma que anda produzindo prosa e verso da melhor qualidade por lá, é a terra de muitos editores e da oficina de criação literária mais antiga do país, a do prof. Assis Brasil, na PUC RS. Foi lá, aliás, que fiz meu estágio pós-doutoral mais recente, justamente para entender como funciona a oficina e como ela influencia o mercado editorial por lá e por todo canto.
Neste 2025, finalmente, darei uma passada rápida pelo evento “O negócio do livro” e participarei de uma mesa-redonda. Claro que vou tentar assistir a outras que me interessam demais e nas quais vão falar editores e escritores gaúchos.
Há alguns meses, fui chamada para falar num programa conhecido aqui em BH, o Brasil das Gerais (BG), veiculado pela Rede Minas. A apresentadora é a Patrícia Pinho, simpática demais. A conversa parece um papo na cozinha de casa e eu me sentia à vontade para falar do tema: mulheres e seus espaços na literatura e na produção de pensamento. Geral, né? Mas fui.
A ideia era que eu compartilhasse o espaço e o tempo com a Mary del Priore, historiadora, e com a Ana Maria Machado, escritora, além de umas entradas da jornalista Brenda Marques. Só que… nada rolou bem e as duas outras convidadas, que afinal estavam em Tiradentes, não conseguiram se conectar para falar na tevê, ao vivo. Ficamos eu e a Patrícia segurando o programa. Ela e a produção preocupadas comigo, tentando me dirigir, se desculpando, e eu feito pinto no lixo.
Depois que o programa foi ao ar, eles deram jeito de ajeitar a gravação. A versão mais completa está aqui. E é muito esquisito me ver assim. Na sala de aula fico mais à vontade.
Fica o registro do que andamos falando na tevê, mas não sem estudar.
A novidade agora sai na gringa! Desta vez, tive notícia da publicação de um livro sobre o Estado como editor de livros, obra cuidadosamente organizada por colegas de outros países, num processo que levou vários anos. Finalmente, o volume sai pela editora argentina Tren en Movimiento, uma das mais valentes que conheço por lá.
Meu capítulo trata de algumas editoras ligadas ao Estado no Brasil, casos que narro (e timidamente analiso), num contexto em que pouco se fala disso. Tentei. Espero que desperte algum interesse.
O primeiro lançamento será em Lima, na feira do livro em que já estive duas vezes. Certamente os colegas cavarão novas oportunidades de tratar da obra.
Em 2022, a Karina Borges me pediu que respondesse a algumas perguntas sobre minhas atividades de escritora e pesquisadora da edição de livros. Pedi alguns dias e respondi. A entrevista seria para o site da editora Quintal, um projeto muito bacana que existia em BH, sob a batuta da Carol Magalhães. Fundada em 2015 e nascida para produzir livros só por/de mulheres, era uma casa feminista e vinha compondo um catálogo bem legal. Findou-se, no entanto, e minha entrevista ficou aqui no meu desktop.
Por estes dias, mexendo nos arquivos do computador e reorganizando minha área de trabalho, topei com a pastinha e o arquivo da entrevista nunca publicada. Busquei nos e-mails antigos e vi que cheguei a perguntar sobre a publicação à Karina, que me deixou meio no ar. Bem, vai aqui a íntegra da entrevista, sem intervenções de lá para cá. É preciso dar o crédito então de que foi em 2022. Apenas os destaques/negritos nas respostas são novos.
Gostaríamos que você se apresentasse e falasse um pouco sobre sua atividade como professora/escritora/pesquisadora.
Sou uma escritora que se tornou professora para sustentar a persistência da escritora. Acho que é uma situação comum, sempre, infelizmente. Isso não significa que eu faça mal qualquer uma das duas atividades; apenas quer dizer que não posso viver de uma delas, profissionalmente, e que os tempos de ambas são atravessados de maneira indesejável. A vida de professora é precária no Brasil, como todos sabem, e a de escritora consegue ser pior. Sou uma apaixonada por leitura, escrita e língua portuguesa que decidiu, então, fazer Letras. Depois de me formar duplamente, como licenciada e como bacharel, fiz mestrado e doutorado em linguística, o que contrariou um pouco as aparências. Eram só aparências. Ser escritora não tem a ver com formação universitária, embora uma coisa possa se beneficiar da outra. Sou pesquisadora porque gosto de estudar alguns temas. A isso também me dedico muito, muito mais do que seria esperado nas condições profissionais e infraestruturais que tenho. Pesquisar não apenas me leva à leitura incessante, mas também à escrita. São desdobramentos apaixonantes, trocas infindáveis com pessoas interessantes, redes intelectuais muito férteis e vivas. É disso que gosto. Sou mineira de Belo Horizonte, onde sempre morei e trabalhei. Tenho um filho que me impulsionou muito, sempre. Tenho perto de 47 anos e mais da metade da minha vida foi e está dedicada ao meu trabalho, algo que pensei que me levaria a alcançar alguns sonhos. Ainda não consigo tirar muitas conclusões sobre isso, mas certamente a conta não fechará. Sou servidora pública, atuo no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, o CEFET-MG, em três níveis de ensino: médio, superior e pós-graduação. Atualmente, sou também pesquisadora do CNPq. Em termos de temas, no CEFET-MG faço o que dificilmente poderia fazer em outro lugar, embora em condições muito aquém do ideal. Escrevi muitos livros de poesia e prosa, incluindo infantis e juvenis. Do ponto de vista comercial, estes são os mais bem-sucedidos. Do ponto de vista simbólico, é a poesia que me leva longe, literalmente.
Antes de começar a escrever sobre mulheres editoras, você pesquisou escritoras do século XX. Existe algo em comum, a ser partilhado, entre uma mulher que edita e uma mulher que escreve?
Sim, pesquisei primeiro escritoras do século XX para ver se elas tinham dificuldades de publicar seus livros; se tinham, quais eram; se elas percebiam isso ou não; quem eram seus contatos em sua época. Uma mulher que escrevia no século passado tinha menos espaço (ainda) para publicar; geralmente ela não era editora; ela encontrava poucos editores e todos homens, em certas regiões delimitadas do país. Isso mudou muito, em especial depois dos anos 1990. Mas mesmo antes, umas poucas editoras existiram, inclusive nos anos 1930, 1940, o que soa surpreendente. Não eram poderosas, não são fáceis de achar nos registros disponíveis, mas estiveram lá. No século XIX, existiram editoras de jornais, por exemplo, inclusive de periódicos dedicados à literatura e que suplicavam para que as mulheres publicassem seus textos sem pseudônimo. Hoje, uma mulher que escreve dispõe de mais canais onde escoar sua produção e tem muito mais facilidade de se tornar a editora de si ou de outras(os). Isso tem a ver com multifatores e em combinações variadas, mas basicamente com tecnologias disponíveis em nosso tempo, sociedade, economia, conquistas feministas, etc.
Como você descreveria o mercado editorial brasileiro? Podemos afirmar que existe representatividade feminina no setor?
É difícil fazer uma descrição do mercado porque ele é grande, diverso, complexo, multifacetado, cheio de ramificações e vasinhos comunicantes. Não sei se podemos dizer que existe representatividade feminina na setor, mas certamente hoje há muito mais mulheres publicando e fazendo sucesso, ou ainda, ficando visíveis, sendo lidas, movendo essa engrenagem, tanto como leitoras/consumidoras quanto como escritoras e editoras. No entanto, a reivindicação disso não cessa e a sensação ainda não é de conforto. Nem sei se é bom que seja. Há tensão no ar e os espaços ainda estão sendo conquistados. Mas é visível que as escritoras estejam aí, não passem despercebidas de forma alguma. As editoras também estão longe, hoje, de ser exceções ou de fazerem livros que ficam escondidos sob uma camada de obras editadas por homens. Hoje, grandes grupos multinacionais têm diretoras e CEOs; editoras pequenas ótimas são tocadas por mulheres e assim vai.
Quais são as principais dificuldades encontradas quando se decide estudar o trabalho de mulheres na edição?
A primeira dificuldade que me vem à mente é a metodológica. É complicado encontrar registros fáceis e fontes prontas, seguras, com dados que estejam na superfície para tratar das mulheres que editaram ou editam. É preciso percorrer trilhas meio laterais, marginais, correr por fora, ler dezenas de correspondências entre homens para pescar um nome de mulher, aí partir em busca dessa figura, geralmente por uma estradinha vicinal pouco explorada. É difícil saber quem são as editoras porque elas geralmente não estão narradas (tratei disso num ensaio); depois encontrar fontes primárias sobre elas; às vezes é possível encontrá-las vivas (quando estamos estudando as pioneiras, claro); é preciso recorrer a entrevistas e à história oral; e tornar isso público é importante, porque cada jovem editora que diz estar inventando a roda está, também, mesmo sem querer, apagando uma predecessora sua. Nós ainda precisamos aprender a nos citar, a nos valorizar coletivamente. Sinto isso mesmo na academia. É trabalho de campo, é investigação, no sentido mais profundo da palavra. É muito gratificante, também, quando dá certo. É como descobrir pedras preciosas num garimpo desorganizado.
Percebemos um aumento de editoras independentes no Brasil, algumas fundadas por mulheres comprometidas em publicar apenas escritos de autoria feminina. Você acredita que a publicação independente tenha propiciado uma ascensão de editoras engajadas na defesa e difusão da produção literária de mulheres no país?
Esse aumento vem acontecendo desde os anos 1990. Muitas editoras foram fundadas por mulheres que já podiam fazer isso sem grandes obstáculos. Alguns desses projetos são feministas declarados, isto é, buscam vozes femininas e ponto. Alguns só trabalham com mulheres em todas as etapas: designers, diagramadoras, capistas, revisoras, etc. Já existiam editoras assim antes, em momentos históricos e sociais menos férteis em tecnologias facilitadoras. A Mazza Edições, por exemplo, nasceu para publicar autorias negras no inicinho dos anos 1980. A editora Mulheres, nos anos 1990, publicava feminismos e resgatava autoras e obras de séculos anteriores. Algumas casas editoriais publicaram coleções dedicadas apenas a autoras. Isso não pode ser considerado novidade absoluta. Mas de 1990 em diante, sim, surgiram mais editoras e mais projetos desse tipo, com menos e mais visibilidade. Várias editoras surgiram fundadas e comandadas por mulheres, mas sem essa missão explicitamente feminista; outras têm o objetivo de trabalhar apenas com mulheres, caso, por exemplo, da Quintal, de Belo Horizonte, da Macabéa, do Rio de Janeiro, entre outras. Mas elas tiveram predecessoras.
Você é uma das coordenadoras do grupo de estudos Mulheres na Edição. Como acontecem esses encontros e quais temas são discutidos?
O grupo nasceu de um projeto de pesquisa que escrevi e submeti à agência de fomento do estado aqui, a Fapemig. Convidei minhas colegas Maria do Rosário Alves Pereira e Renata Moreira para conduzir tudo comigo, e daí nasceu a certeza de que precisávamos nos manter estudando. O grupo nasce da dificuldade que temos de estudar, de ler sistematicamente, de não perder o ritmo de pesquisadoras, porque as horas de leitura e debate costumam ser esquecidas nas computações de encargos. Isso não é tranquilo, dado. Então nos prometemos uma leitura por mês, pelo menos, e abrimos as portas desse “evento”, isto é, do dia em que íamos nos encontrar para discutir esse texto mensal. Daí algumas pessoas começaram a vir, a se encontrar conosco, a ler conosco. Na pandemia, o grupo migrou para os encontros virtuais e cresceu, cresceu exponencialmente. São mais de 250 pessoas cadastradas, que recebem nossos informes e indicações bibliográficas*. Essa turma toda é sempre convidada para os encontros, e a média de pessoas frequentes nos dias de debate é de 30 pesquisadoras e pesquisadores. Sim, homens são bem-vindos e temos colegas ótimos debatendo conosco. Uma vez por ano fazemos um evento comemorativo do aniversário do grupo, em agosto. Participamos de muitos eventos que querem nos ouvir e trocamos com pesquisadoras/es de várias partes do país e da América Latina e Europa, onde há pessoas com interesses parecidos. Nosso trabalho tem sido bem visto e reconhecido. A ideia é sempre conectar mulheres e edição, então lemos muitos textos feministas, estudos de caso, teoria, mas também textos de edição, para que façamos esses links. Essa é a inovação da coisa.
Ano passado, você e outras investigadoras lançaram pela Editora Moinhos o livro Prezada Editora. Como foi que surgiu este projeto? Ele terá uma continuidade?
O livro foi organizado por nós três, coordenadoras do grupo, e conta com pesquisadoras que fazem parte dele e outras que não. O projeto surgiu dos meus arquivos, da ideia de juntar textos sobre editoras brasileiras num volume bacana. Isso não existia no Brasil. Há coisas parecidas na Colômbia, na Argentina, na Espanha… mas é raro.
Reunimos então as pesquisadoras, os textos, trabalhamos neles e colocamos na coleção Pensar Edição, que coordeno com dois parceiros ótimos, os editores Nathan Magalhães e Pablo Guimarães, respectivamente das editoras Moinhos e Contafios. É importante que haja continuidade disso, mas não temos ainda fôlego para outro livro. Estamos escrevendo artigos e capítulos de obras para as quais nos convidam. Espero que em breve possamos reunir outros trabalhos de mais pesquisadoras sobre outras editoras brasileiras.
Que conselho você daria para alguém que quer pesquisar mulheres editoras no Brasil?
Ah, participar do nosso grupo (risos). Não há ainda outro espaço igual. É preciso ler, estudar, ter acesso a uma bibliografia nem sempre fácil e visível, abrir o olhar para nossas questões, despertar para a investigação nesta perspectiva (feminista e editorial), ter interlocutoras(es), debater, acertar e errar coletivamente, ganhar força com mais pessoas reunidas, escrever, publicar, dialogar. É trabalhoso, é preciso investir tempo. Mas estamos fazendo isso com a certeza da importância que tem. É importante praticar uma ciência generosa, de trocas e em que todas puxam todas. Há pessoas incríveis no grupo, fazendo pesquisas maravilhosas.
* Em 2025, temos mais de 400 pessoas cadastradas no grupo. Os encontros continuam sendo mensais e sem interrupções.
Ana Elisa Ribeiro, Maria do Rosário Alves Pereira e Renata Moreira em encontro na sede da Academia Mineira de Letras, 2021.
Saiu o dossiê que relaciona as tecnologias digitais e os textos. Luana Cruz e eu colaboramos com um artigo derivado da tese defendida no Posling CEFET-MG. Mostramos como o plugin de certo ambiente de publicação pode afetar, negativamente, o texto produzido. No caso, há um efeito de padronização e planificação bastante ruim para a criatividade. Vale espiar aqui.