A vida acadêmica produtiva exige paciência. É o que muita gente não tem. A ansiedade é um mal que acomete sem distinção. Mas o que se pode fazer? Talvez tenhamos desaprendido a entender o tempo das coisas e das pessoas que as fazem. Por outro lado, muita coisa anda mesmo atrasada e atravancada, o que nos deixa em maus lençóis.

Dizem que precisamos pesquisar. Quanto tempo uma pesquisa exige? Que precisamos escrever? De quanto tempo precisamos dispor para escrever um artigo? E para publicá-lo, se estiver bom? Uma revista leva cerca de um ano para dar uma resposta ou para publicar de fato um texto, isso quando é organizada. No Brasil, a tendência à precarização e à descontinuidade nos deixa, quase sempre, com um sentimento de suspensão e de frustração. Somos nós mesmos e nossos colegas que editamos as revistas, e elas nunca estão tão boas quanto poderiam (e deveriam). Tudo depende muito de um empenho pessoal ou de pequenos grupos, se tudo o mais ao redor funcionar. E geralmente não funciona. Editei algumas revistas, algumas vezes, e só não sofri mais porque tinha colegas muito razoáveis comigo. E nem isso é garantido. A sensação de brigar contra a própria instituição em que estamos produz um cansaço imenso, e desanima.

Lidar com a escrita parece sofrido para muitas pessoas. Não sou uma delas. Escrever sempre foi um oásis para mim. Não é nenhuma mágica. Me dispus para a escrita desde bem cedo e entendi que ela seria minha travessia para muitas coisas. Fiz mestrado e doutorado com prazer (mesmo conciliando com trabalho mal remunerado, filho pequeno, marido abusivo e tudo). Entendi que minha carreira dependeria da escrita de um modo cadenciado. O negócio é como correr (a estratégia), e talvez eu tenha aprendido isso na pista de atletismo da minha boa escola pública da juventude: não dá para queimar toda a energia nos primeiros metros. O lance é a constância, a depender da modalidade da corrida. A vida acadêmica é uma corrida de longa distância. Também aprendi isso com um amigo que gostava de dirigir na estrada e chegar bem ao outro lado, em tempo razoável. É claro que pode haver intercorrências: problemas de saúde, mortes, cuidados extremos… Isso paralisa. Mas se não acontecer, as coisas me parecem administráveis.

Se alguém está sempre pesquisando, sempre escrevendo um pouco, sempre observando as oportunidades, também poderá estar sempre cumprindo o que precisa para entrar e se manter na vida acadêmica. Manter… É o mais complicado. Sobretudo quando não fazemos parte do elenco de três ou quatro universidades mais visíveis… A luta é bem grande.

Há uns dias, recebi a boa notícia da publicação de um capítulo em um livro no México, em coautoria com uma colega muito especial, a Jenny Guerra. Em 2025, ela esteve por aqui comigo, em Belo Horizonte, quando firmamos ainda mais nossos laços feitos pela internet. Vimos trabalhando juntas há tempos. O texto está no livro Tendencias de la investigación bibliotecológica y estudios de información, que deixo aqui e que pode ser baixado livremente. Derivou de um evento do qual participamos no Instituto de Investigaciones Bibliotecológicas y de la Información da Universidad Nacional Autónoma de México (Unam), no final de 2025. Fiquei feliz quando Jenny me enviou o arquivo.

Nosso capítulo tem uma história de meses, com algumas curiosidades. Escrevemos a partir de uma provocação da Jenny para que comparássemos algumas editoras brasileiras e os usos da inteligência artificial gerativa. Levamos semanas entrevistando pessoas, estudando, lendo e produzindo juntas cada linha. Com isso pronto, submetemos o artigo a uma revista brasileira, que reprovou nosso trabalho com dois pareceres curiosos. Havia elogios, sim, mas havia ressalvas peculiares.

O texto ainda estava em português. Uma das ressalvas arriscava dizer que nossa tradução fora feita com alguma IA… Eu só pude rir. Não era. Era pura tecnologia analógica. Isso nos deixou também irritadas. Há pareceres que são justos; há outros que são pedantes; e essas coisas nem sempre se excluem. Bem, pegamos nosso texto de volta, consideramos alguns apontamentos mais sérios dos pareceres e voltamos as costas à revista, que segue tentando sobreviver. Enquanto isso, trabalhamos para o livro. E ele saiu. E nos deixou felizes. O texto talvez interesse a alguns colegas que lidam com nosso tema. A tradução ao espanhol é das colegas mexicanas, sem IAG. 🙂

Além da cadência necessária para produzir e manter a vida acadêmica on, é preciso ter paciência com muito mais coisas e entender que é sempre possível melhorar, sem abaixar a cabeça para o pedantismo anônimo. Vamos ao que interessa.