Autor: Ana Elisa Page 22 of 100

Encontro na UnB

A semana que passou foi de muitas leituras, pouca escrita, muitas ponderações, nuvens e chuva em BH, além de lembranças que vinham de assalto. Mas foi uma semana menos atabalhoada do que de costume. Uma das coisas boas foi um encontro virtual na Universidade de Brasília a convite do querido Kleber Silva, na companhia de outro colega, o Petrilson Pinheiro (Unicamp). Temos falado de coisas similares, cada um a partir de seu prisma. E a conversa com estudantes da pós-graduação foi bem gostosa.

Semana em tópicos

Passei vários dias me preparando para bancas acumuladas. Dá sempre muito trabalho ler dissertações e teses que pedem pelo nosso olhar (generoso e cuidadoso). Sempre prefiro comentar o trabalho que tenho em mãos; e não ficar falando do trabalho que poderia ter sido. Esse é meu exercício de respeito ao esforço alheio, mas também meu esforço de contribuição à versão que ainda será entregue.

Aulas, aulas, aulas. Semana de aulas presenciais que me surpreendem. Vou achando que a energia está baixa, que ainda não me acostumei de novo, mas as energias se renovam e multiplicam quando chego lá. Estou trabalhando, neste semestre, com turmas de três níveis de ensino, e todas muito atentas e sedentas pelas coisas que proponho. Tem sido alentador, depois de dois anos de pandemia. Gosto da experiência remota, mas tem sido também bom ver olhos vívidos diretamente.

O campus continua precário. Minha tristeza sempre em riste por isso.

Não consigo deixar de fazer planos como pesquisadora. Tenho pensado se um dia desistirei com honestidade. Ainda parece longe. Sou pesquisadora apesar de.

Não consegui escrever nada na semana e nem revisar o que precisava. É tempo de dar tempo.

Foi chato dirigir nesta cidade por estes dias. Não sinto saudade desse tipo de ocupação deste território hostil.

Pela primeira vez, ouvi o som do mecanismo do elevador no prédio em que dormi na terça-feira. Aos poucos, vou conhecendo essa morada com mais detalhes.

Reuniões, reuniões. Elas costumam me intoxicar. Nesta semana, consegui me entristecer menos. Não há como fugir delas completamente, mas eu adoraria.

Estamos fazendo livros. Por todo canto que eu olho, vejo livros sendo produzidos por pessoas apaixonadas. Há livros de poesia, de prosa, técnicos, didáticos. É neles que eu gosto de morar.

Acho que estou atrasada com algum texto. Isso é uma condição da vida.

Não li meu horóscopo em lugar algum nesta semana, mas devia estar escrito que não seria exatamente fácil pensar no amor por estes dias.

Tivemos um encontro feminista. Essa consciência tem transformado a minha vida, inclusive para trás, na reavaliação do que passou.

Fizemos gravações de coisas que serão exibidas no futuro; assinamos contratos; fizemos pagamentos; compramos geleias; prestigiamos o trabalho de outras mulheres; lemos.

Você escreveria sua vida de novo? Sim.

E pode? Não.

Espero ansiosamente pela chegada de alguns livros pelos Correios. Pensei nisso várias vezes, sem querer, então é ansiedade mesmo. Por que não chegam?

Estamos avaliando possibilidades. E parcerias.

Andei trocando umas palavras pelo castelhano sem querer. Isso é aprender?

Entreguei o imposto de renda. Deprimente.

Tenho medo de que meus bloquinhos de papel se acabem. Mas isso é impossível, exceto por um incêndio de grandes proporções.

Eu deveria tratar a música com mais respeito em minha vida. Dar mais espaço a ela.

Também a dança.

Mas uma vida só é pouco. E a exploração do trabalho não deixa.

Liberaram os rostos, não precisamos mais usar máscara em locais fechados. Mas eu usarei. Ainda tenho medo de respirar.

Conversa na escola

Conversar com estudantes da educação básica sobre meus livros me dá mais frio na barriga do que muita coisa! Mas eu vou. E sempre me surpreendo com as perguntas e o interesse curioso que essa galera demonstra.

Hoje foi dia de visitar virtualmente escolas do Sesi/Firjan, no Rio. E pude falar um pouco sobre os processos de criação/produção de O e-mail de Caminha, irmão mais velho do meu Romieta e Julieu (ambos pela RHJ).

Sei que os livros têm seu tempo para chegar aos leitores e às leitoras. E meus filhotes estão chegando. Que venham sempre perguntas desafiadoras e divertidas sobre eles. Eu me diverti muito fazendo.

Machismo e mercado editorial

Neste abril, minha coluna no Rascunho foi sobre um “fenômeno” interessante que é a emergência dos “autores de autoras”. Está melhor explicado no texto. Com essa publicação, atingi muitas galeras, algumas porque se identificaram como vítimas do lance, outras porque identificaram a questão, mesmo quando são eventuais “violadores”.

Poucos homens vieram comentar algo comigo sobre isso. Mulheres… muitas, claro. Uma pena que isso não seja mais equilibrado, mas a gente também presume por quê. Bom, um dos parças dispostos ao debate foi o Nathan Magalhães, editor da Moinhos e dono do site e do canal LiteraturaBR. Ele logo sugeriu uma live e nos metemos lá, numa sexta à noite, feriadão. Mesmo assim, teve gente pra conversar.

O papo pode ser visto aqui. E tentei que fosse sério, qualificado e honesto, como acho que merece ser.

Fanfic: propostas para a escrita

Hoje tivemos live do Aula Aberta com a profa. Raquel Abreu Aoki, da UFMG, sobre fanfics. Além de estudar e pesquisar esse tema, ela produziu um ebook com estudantes de Letras. Esse material dá muito pano para manga em nossas aulas de leitura e escrita, vejam só!

Aproveito para deixar também o link de um ebook produzido a partir de uma oficina de escrita criativa que fizemos em 2020 como atividade do grupo Mulheres na Edição. Não era uma fanfic, em todos os seus sentidos, mas foi um jeito de escrever homenageando outro texto e outra escritora. Tá tudo explicado lá.

Poesia conflui em Barcelona

Em março passado, depois de alguns anos adiando o evento, sete poetas mineiros e mineiras fomos passar uns dias em Barcelona, na Espanha, a fim de encontrar lá poetas catalães e trocar nossos textos e experiências.

O evento teve apoio de várias instituições brasileiras e espanholas, em especial da Lei Municipal de Cultura de Belo Horizonte e a Casa Amèrica de Catalunya, que nos recebeu lindamente.

Foram três dias de conversas, mesas e leituras, com público atento e numeroso, num ambiente de absoluto interesse.

A curadora e produtora Izadora Fernandes nos brindou com este texto retrospectivo no jornal O Globo, na coluna cedida por Afonso Borges.

Aqui, algumas fotos que registram esses dias de alento:

Mesa com poetas

Com Renato Negrão, poeta e curador
Com Mariana de Matos
A turma toda no painel da Casa Amèrica

Multiletramentos em PE

Nesta sexta, minha presença virtual estará em Pernambuco, conversando com colegas queridos/as e falando de multiletramentos. As inscrições ficaram disponíveis aqui.

E assim foi:

Batendo prova

Diversão pura. A turma do podcast Batendo Prova me chamou para conversar e falamos por quase 2h sobre edição, livro, leitura, pesquisa, ensino, educação, Brasil… enfim. Se tiverem paciência e tempo, entrem no papo por aqui, ó.

Multiletramentos e projetos

Tem livro novo na praça! Esta semana, a querida Dorotea Kersch avisou que esta coletânea de textos foi para o ar. Está disponível para baixar gratuitamente no site da Pimenta Cultural.

Neste volume, colaborei em coautoria com o pesquisador de doutorado Michel Montandon, meu orientando e um parceiro supimpa. Tivemos juntos uma experiência no ensino médio, semestre passado, e a relatamos para este livro. Tudo se aproveita! E com tudo nos divertimos. Vale baixar.

Xerox e abraço

No último mês, me senti de volta a 2019. E tem sido surpreendente, além de frustrante e impressionante. Mas eu já desconfiava…

Eu até podia entender quando as pessoas falavam da falta que fazia, eventualmente, abraçar estudantes, ter contato físico, olhar nos olhos, ouvir a voz ao vivo, brincar monitorando as reações, mas nunca pude entender outras saudades: a de reuniões, por exemplo. Essa não entrará na minha cabeça. Em especial porque vivi intensamente os dois anos mais recentes, e trabalhando muito.

Eu mesma sempre usei muito papel, em especial na graduação. Levava, quase religiosamente, um texto impresso para a sala, com o objetivo de que a turma lesse junta, comigo, fazendo pausa protocolada. Depois daquela clássica cena da professora entregando papelzinho em carteira por carteira, e do pessoal que chega atrasado pegando depois, a gente começava a ler para discutir. Era proveitoso por algumas razões, mas destaco uma: no turno da noite, geralmente as pessoas não tinham tempo de ler previamente os textos indicados, então era ainda mais frustrante chegar em sala e ver que seria difícil avançar sem leituras. E o detalhe: leciono num curso de Letras. O jeito era compartilhar aquele momento com eles, embora isso fosse contra tudo o que tanto estudamos sobre “sala de aula invertida” e outras metodologias ativas. Se as pessoas não leem e têm seus argumentos para isso, enfim, o que me restava? A estratégia clássica me valeu durante muitos anos e fez com que muita gente tivesse contato com textos breves para debates que davam pano para manga.

Eis que se abate sobre nós todos/as uma pandemia e, de repente, passamos a dar aulas em ambiente virtual. Com isso, até quem jamais havia pensado nessa possibilidade teve de aprender a organizar tudo digitalmente: pdfs, arquivos de todo tipo, textos em repositórios previamente arrumados, etc. Foram 2 anos fazendo isso, não foram 2 meses; foram ali pelos 600 dias de nossas vidas reaprendendo a dar aulas e ajustando tudo para que as leituras acontecessem, as aulas rolassem, os trabalhos fossem feitos e entregues, lidos e avaliados. Pois bem.

A volta ao campus está acontecendo agora, nesta semana (última de março de 2022). Começam a chegar e-mails alvoroçados dos coordenadores e chefes pedindo pelo amor de Deus que as pessoas se controlem no uso da máquina de xerox e do papel. Oi?

Bom, é que o campus está sem a menor condição: não tem cantina, não tem restaurante, não tem estacionamento, tem obra barulhenta logo debaixo da janela. É isso. Acolhedor, não? E a lojinha do xerox também não está mais lá. Tudo era licitado… e isso se perdeu nos dois anos pandêmicos. E não foi recuperado antes do retorno ao presencial… dizem que porque essa é a regra federal geral. Oi??

Tá, então não tem mais loja de xerox nem gráfica da escola. O jeito é operar aquela máquina que fica na sala do departamento para um uso mais excepcional… que agora será ordinário. Bem, mas calma lá, como assim? Textos curtos, ok? E eis que o alvoroço da coordenação continua: pessoal, a máquina não aguenta esse tanto de páginas, de xerox, de impressões!

E dá-lhe memorando e sei lá o que mais pedindo mais toner, mais papel, mais tudo, enquanto o setor de suprimentos e de almoxarifado enlouquece e começa a questionar todo mundo: para quê isso tudo? Vamos cancelar vocês!

A pergunta que não quer calar é: onde você, professor/a, esteve nos últimos dois anos? Como deu aulas quando nem se podia ir ao campus? Como preparou seus materiais e os disponibilizou? As aulas aconteceram? Ou você sequer usou textos, e deu aulas expositivas de turnos inteiros? Não aprendeu nada com isso? É sério? Será que parte do que supostamente foi aprendido não pode se tornar uma prática ordinária?

Bom, já ouvi cada coisa… Ouvi dizerem que todas as reuniões voltarão a ser presenciais, mesmo quando são desnecessárias; ouvi dizer que nada pode nem lembrar o ensino remoto; ouvi dizer que celular está proibido em sala; ouvi dizer, ouvi… Espero não precisar obedecer, não quero entrar nessa máquina do tempo de ré.

Onde é que estávamos nos dois anos mais recentes de nossas vidas profissionais? Eu estava bem engajada nos ambientes virtuais e aprendi a fazer muita coisa por meio deles. Várias delas, espero, vão continuar comigo. Ou será que não vão permitir que eu integre algo que funciona bem nas minhas práticas, de agora em diante? Não é bom duvidar…

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Ana Elisa • 2020